segunda-feira, junho 27, 2011

Por mim.


Eu sempre fui uma menina comportada. No início, o era pra agradar os outros. Hoje, o sou por mim mesma. Continuo comportada na medida da minha vontade, embora tenha descomportado algumas idéias e modos de agir, porque meu crescimento e minhas mudanças não comportam mais a grande maioria dos itens que eu carreguei durante tanto tempo na minha bagagem. Alguns se tornaram pequenos pra a minha estatura; outros, grandes demais pra caberem na minha mala. Outros, supérfluos; outros, perderam seu valor; outros, ainda, se tornaram obsoletos. De alguns, enjoei. De outros, desisti. Tudo que renunciei e tudo que acrescentei, o fiz por mim. Não me lembro de ter tomado decisão melhor. Resolvi me dar um voto de confiança e uma chance de viver a vida - que (eu descobri há pouco), por acaso, é minha. Não tenho o hábito de sair dos trilhos, mas de vez em quando me pego fora deles, e o interessante é que não se tratam de atos de insanidade; pelo contrário, me percebo tão lúcida quanto quando estou sobre os mesmos. Apesar de me assumir o ser mais sistemático e perfeccionista do planeta, tenho dado folgas intermitentes a mim mesma, e tem sido muito bom. A gente se conhece melhor. Chegar perto das minhas periferias me permite identificar meus limites, os quais tantas vezes tive a impressão de serem curtos e tênues, mas que, na verdade são mais extensos do que eu imaginava, e essa é uma viagem que tenho feito frequentemente, mas da forma mais cautelosa que vocês possam imaginar. Hoje, se não excedo os meus limites, acreditem, é somente por mim. E se um dia eu chegar a ultrapassá-los, não duvidem: será por mim também.

domingo, junho 26, 2011

Deixa passar.



É aquela velha estória de "o que não mata, engorda". Na grande maioria das vezes, aquilo que você pensa que não vai suportar pode até doer e incomodar por um tempo considerável, mas um dia passa - se você deixar passar. E depois que deixa passar, você se sente mais forte. E engorda mesmo. Engorda porque aumenta, aos poucos, a capacidade de digerir as coisas, os fatos, as pessoas. Engorda porque aprende a acumular experiências. Porque à medida que você cresce, a vida vai te dando de presente roupas largas, e se você não se esforçar pra caber nelas, terá sua nudez exposta constantemente, e a frieza de cá de fora é cortante. Eu sei que dá medo essa coisa de inchar, mas bem pior é congelar e morrer pequeno e seco, ainda que demore anos pra morte lhe chegar. Morrer em vida, e à prestação, [acho que] dói bem mais.

sexta-feira, junho 17, 2011

Pra matar saudade.




Pra matar saudade, tem gente que se esconde do objeto que a evoca. Procura não frequentar locais, nem tirar fotografias do baú ou ouvir alguma música que faça fomentá-la. Eu não. Eu sou diferente. Saudade pra mim é falta, e falta só é suprida quando a gente chega perto. Mas se não dá mais pra chegar perto e tocar, ouvir a voz, colher o sorriso e ler o olhar, então eu me viro buscando a única coisa concreta que pode me fazer senti-lo de novo: a lembrança. Eu fecho os olhos e pego carona naquilo que sempre foi sua cara pra poder chegar de novo até você - a música (porque é aí que eu sei te encontrar). Eu busco seu perfume e o borrifo, pra chegar perto do seu cheiro. Eu fixo o meu olhar na sua foto e imagino você aqui, como nunca mais será. Eu preencho o espaço vazio da sala com uma projeção da sua figura. Eu choro, é verdade. Mas eu não ligo; olhos foram feitos pra isso também. Quando não podem enxergar mais aquele que se foi, tendem a transbordar saudade na forma líquida. Quem não chora petrifica, e saudade petrificada vira angústia. Pra matar saudade, eu queria mesmo um abraço bem apertado e uma gargalhada daquelas, vô. Já são 10 meses sem você. Mas, hoje a saudade bateu um pouco forte demais. Eu olhei pro céu e perguntei quando você ia voltar, mas não obtive resposta. É, eu sei; você não volta mais. Eu é que um dia vou aí ver você. E matar saudade de verdade. Pra sempre.

P.S.(Ao som de Nat King Cole, um dos cantores preferidos dele... e meu também.)

                                            

quinta-feira, junho 16, 2011

Muito o que aprender



Uma das coisas que eu mais prezo na vida é a paz. Conseguir colocar a cabeça no travesseiro à noite e adormecer leve. Acordar no outro dia mais leve ainda, flutuante, sem ter que imaginar levantar da cama e colocar a cara na rua. Andar pela calçada livre, e ter coragem de encarar as pessoas, não levando tanto em conta o que os semblantes delas parecem dizer. Mas, pra isso acontecer, eu tive que conhecer a liberdade. Não essa de ir e vir. Ela também é importante, mas, não é essencial. De que adianta poder sair por aí e voltar quando se quer se cá dentro a gente anda em círculos num metro quadrado de cárcere da nossa alma? E posso afirmar que, se não sou tão livre ainda, estou a caminho de ser. Não é a religião ou qualquer livro de auto-ajuda que tem me feito assim, embora suas promessas e dicas tenham me fisgado e, durante anos, eu perdi tempo e dinheiro com essas duas opções, que até seriam ferramentas úteis se usadas da forma correta. A primeira coisa que tive que fazer foi tirar a venda e assumir que eu era refém de mim mesma. Depois, entender que as ordens para dar voltas como um parafuso em torno de si mesma  vinham, tão somente, de minha pessoa. E, antes de ter que enfrentar o mundão aqui fora, eu tinha que enfrentar um mundinho aqui dentro que até parecia pequenininho, mas que é infinito, se comparado ao espaço geográfico do mundão. Depois disso, aprendi muita coisa. A me olhar no espelho e me achar linda. A entender que tem gente que não acha, e que eles são livres pra isso também. A aceitar minhas exceções - que não são poucas. Que determinados padrões são modelos instituídos por uma  classe que visa apenas interesses próprios, bem como escravizar e alienar a massa, e justamente por isso não quer dizer que sejam verdades absolutas. E por falar em verdade, também entendi que cada um tem a sua e ponto. Que existem algumas verdades em mim  que são doídas demais, e que se eu não posso extirpá-las, aprender a conviver com elas é a minha única escolha. Que, embora perfeccionista, eu passo longe da maioria dos padrões sociais atuais. Que existe quem me ame e quem me odeie; e que estes últimos são a maioria. Que, da mesma forma, eu amo e odeio muita gente também. Que ninguém é unânime em absolutamente nada. Que se sou eu quem paga as minhas contas, o resto que vá à merda: podem falar o que quiser; eu tenho as minhas verdades bem alicerçadas, e não me resta mais tempo a perder, porque ainda há muito o que aprender.

sexta-feira, junho 03, 2011

Quase 30.


Nunca escondi de ninguém que entrar na casa dos 30 me assusta da mesma forma que eu me assustava com o escuro quando era criança. Não sei o por quê. É dificil aceitar essa idéia de me tornar uma balzaquiana, assim, 'tão cedo', embora eu ande convicta que a maturidade dessa fase é muito boa, me faz enxergar o mundo, as pessoas, a vida [e tudo que passou] com outros olhos. Faz com que eu me entregue à vida de uma forma mais completa e leve.

Talvez todas as mudanças que aconteceram até aqui foram, justamente, pra me preparar pra entrar no rol das mulheres de 30 com uma cabeça de mulher de 30, afinal, experiência não é apenas o que acontece com a gente, mas o que a gente faz e como a gente se comporta diante do que acontece com a gente. Até aqui passei por muita coisa. Optei por não passar por outras. Fiz coisas que jurava de pé junto que nunca iria fazer e deixei de fazer outras que jurava que faria até o fim da vida. Chorei muito, molhei muita fronha. Sorri também, de doer a barriga. Tomei porre de tequila, de whisky e de vinho; foi preciso que eu passasse por isso pra poder acertar nas próximas doses. Perdi minha voz, depois a encontrei. Conheci dores fantasmas, perdi um dos maiores amores da minha vida (vô, sempre vou te amar), joguei vôlei na chuva e aprendi a dirigir. Fiz amizades. Desfiz outras. Pensei muito. Escrevi muito. Enfim, me conheci: foi um imenso prazer!

Enfrentei bancas de concurso, conheci várias pessoas maravilhosas e outras mil arrogantes, me perdi na mata em plena Chapada Diamantina, andei em meio a serpentes e até as manipulei. Ouvi silêncios que gritavam. Vi minha família ruir. Entendi que sexo é um lance bioquímico e o amor é um laço cujo nó não é regido por moléculas. Aprendi que depressão é doença, não tem nada haver com o diabo. Que o diabo e Deus também existem, que eles podem até nos influenciar em alguma coisa, mas no final, a decisão é nossa. Que somos fracos, bem mais fracos do que pensamos, e que escondemos nossas fraquezas por pura vaidade. Que a vida é agora. Que não dá pra se esquivar de tudo na vida: existem coisas pelas quais a gente tem que passar.

Tô na segunda faculdade, escrevi um livro [falta só publicar], casei e separei. Corri atrás do que me faz feliz. Sou bem resolvida na maioria dos aspectos da vida, com um número razoável de amigos de verdade e, até aqui, consigo conviver com minhas cólicas, minha miopia e com meu TOC. Me aceitei humana demais. Depois, me tornei levemente ácida. Arquivei muita coisa; não dá pra levar em conta tudo nessa vida. Ela fica insuportável. Não cabe tanto na mala dessa nossa viagem. Furei o meu bolso: precisava perder algumas coisas que não tinha coragem de jogar fora. Briguei feio com meu superego; devo frisar que ele ganhou quase todas, mas ultimamente, eu tenho conseguido colocar ele no chinelo. Mas dentre tantas derrotas, resolvi parar de me esconder do meu id. Rompi quase que definitivamente com sentimentos de culpa sem sentido. Aceitei muitas pessoas do jeito que elas são. Outras, ainda não consegui aceitar. E outras eu não quis aceitar mesmo, achei que não valia a pena.

Sofri de paixão. Mudei a cor do cabelo mil vezes: já fui loira, ruiva e morena de novo. Assisti o pôr-do-sol no Elevador Lacerda. Fiz terapia (e ainda faço). Me decepcionei e devo ter decepcionado também. Mas ainda sonho. Muito. Um sonho diferente. Eu sonho acordada, com os pés no chão da cerâmica gelada do meu quarto. Sonho com um filho, um closet cheinho de roupas e sapatos, e uma salinha cheinha de livros. Sonho com uma faxineira de segunda a segunda e um emprego que me aceite das 9 às 17hs. Com uma banheira de hidromassagem em casa e um show do Los Hermanos. E desejo. Muito também. Desejo equilíbrio. Saúde. Paz de espírito.

Ainda assim, entrar nessa década da vida não me deixa menos aflita. Na verdade, eu tenho só impressões dessa nova era que me aguarda. Ano que vem, então, depois que eu cruzar a linha de chegada, passo aqui pra contar. Por enquanto vou curtindo meus 29 anos [e meio]. Que não voltarão nunca mais.

terça-feira, maio 31, 2011

Por acaso.


Ando prestando muita atenção no acaso. Ele também existe, como Deus e o diabo, e determina muita coisa além dos poderes do bem e do mal.

sábado, maio 28, 2011

Uma mulher como outra qualquer.




Poucas vezes nessa vida eu me apaixonei por alguém.  Quatro, pra ser mais exata. Mas, embora cada uma tenha acontecido em fases diferentes da minha vida, a terceira foi realmente a mais avassaladora, e acho que foi assim justamente por causa do platonismo que a cercava: absolutamente nada, além de um abraço [um loooongo abraço]. Nenhum fluido, além do nosso suor. Durou 10 meses. Passou, como todas as outras. Foi tudo muito hormonal. Cois típica de adolescente. Acredito que, nem se eu quisesse, sentiria algo semelhante àquilo, hoje. A maturidade nos rouba esse privilégio de se entregar a determinadas sensações [e situações]. Mas posso dizer que ele foi uma das coisas mais ilógicas que já aconteceu na minha vida. Foi com ele que a teoria do controle remoto caiu por terra. Foi com ele que eu aprendi a dinâmica dos contrários. Até porque éramos totalmente opostos, e  isso ratificava as leis da física. Fomos um para o outro sem nunca termos sido. Nossas bocas nunca se descobriram, nossos corpos nunca se desnudaram, e paira sobre mim uma certeza: nunca haverá consumação alguma. Mas, ainda assim, ele me fez sentir a sensação dilacerante e indescritível de me reconhecer o que eu sempre fui, de fato: uma mulher, como outra qualquer...

sexta-feira, maio 27, 2011

Pesado.



Eu tenho uma tendência absurda [e ridícula, diga-se de passagem] de absorver as coisas ao meu redor. Sou muito eletronegativa. Uma esponja ambulante. Acho que minha sede de conhecimento extrapola a alma e, sem querer, eu acabo capturando tudo que passa na minha frente. Até a vida de algumas pessoas consegue fazer intercção com a minha sem que eu, necessariamente queira. Longe de ser um dom sublime, isso me causa muitos problemas. Afinal, eu também estou longe (bem longe) de ser uma mulher-maravilha, e a minha vida já é um tanto quanto pesada pra eu me dar ao luxo de carregar mais alguns pedaços de outras, ainda que esses pedaços, de uma forma ou de outra, façam parte de mim.

sexta-feira, maio 20, 2011

Mudanças


O Humana Demais mudou: agora ele é Leve [Mente] Ácida. Mudou não porque eu me percebo menos humana. Pelo contrário; tenho entendido e vivido essa condição mais do que nunca. E, justamente porque sou humana, mudo a cada dia. Mudo porque o correr da vida e a rotação do planeta exigem. É, o mundo gira. E se a gente não girar com ele acaba ficando tonta de tanto olhar ele girar.

Mudou a cor do template, mudou o teor dos textos [acho que isso vocês já tinham percebido]. Penso estar inaugurando um novo tempo de vida. Aquela menina doce que a vida tornou tão amarga e deixou a tantos com sede da sua presença por apresentar momentos de {in}salinidade, agora traz consigo uma leve acidez: na mente, no corpo e na alma; nas palavras, no discurso e na postura; na voz, no olhar e no sorriso. Leve [mente] ácida. Aqui, não denota aspereza, azedume ou grosseria (embora todos nós, ácidos ou não, tenhamos esses momentos). Não corrói, mas pode incomodar quem não aprecia o pensamento crítico e/ou criativo. De qualquer forma, não precisa se preocupar com essa tal acidez; ela é realmente bem fraca. Mas, é claro, vai depender muito do seu estômago. Se a gastrite estiver atacada, melhor nem chegar perto: pode agravar.

Abaixo, segue um trecho da crônica Química Orgânica, de Vinícius de Moraes, que descreve [com maestria] as mulheres ácidas... e as básicas:

"... Mas, do que pouca gente sabe é que há duas categorias antagônicas de mulheres cujo conhecimento é da maior utilidade, de vez que pode ser determinante na relação desses dois sexos que eu, num dia feliz, chamei de "inimigos inseparáveis". São as mulheres "ácidas" e as mulheres "básicas" (...) De um modo geral, a mulher "ácida" é sempre bela, surpreendente mesmo de beleza. É como se a Natureza, em sua eterna sabedoria, procurasse corrigir essa hidrogenação excessiva com predicados que a façam perdoar, senão esquecer pelos homens. Porque uma coisa eu vos digo: é preciso muito conhecimento de química orgânica para poder distinguir uma "básica" ou uma "ácida" pela cara. A mulher "ácida" tem uma consciência intuitiva da sua química, e não é incomum vê-la querer passar por "básica" graças ao uso de maquilagem apropriada e outros disfarces próprios à categoria inimiga.(...)"

Não existe prejuízo em ser ácida ou básica; cada mulher é do jeito que é [ou decide ser]. Afinal, nesse mundo, há gosto pra tudo [até para as neutras: insossas e insípidas]. Mas, ainda assim, por que será que a coca-cola é preferência nacional?


"Feliz de quem entende que é preciso mudar muito pra continuar sempre o mesmo". (D. Hélder Câmara)

segunda-feira, maio 16, 2011

Essa é velha...



... mas ainda tem gente que acredita nela...

Eu não vou fazer nada que você não queira.

... em outras palavras significa...

Eu vou fazer de tudo pra tentar lhe convencer a transar comigo.

domingo, abril 24, 2011

Que eu não vivo sem você.


Um dia me perguntaram se eu me imaginava sem você. Antes mesmo da pessoa terminar a pergunta eu já balançava a cabeça negativamente e, por pura educação, esperei que ela terminasse a frase com um grande ponto de interrogação pra poder responder em seguida, sem pestanejar (e sem imaginar): não! E é verdade. A parte do não imaginar que é mentira. Perdi as contas das tantas vezes que eu me imaginava sem você, e me via também sem mim. Isso doía tanto que eu sempre resolvia parar de imaginar e abraçar você na esperança de que você nunca me falte. E num curto discurso desejava, de todo coração, que eu faltasse primeiro. Talvez por egoísmo, não sei exatamente. Talvez por odiar fechar ciclos. Talvez por medo de confirmar a hipótese de que eu não vivo sem você.

(Post escrito ao final de um domingo que eu passei lendo esse blog liiiiindo aqui: Diário dos Três Mosqueteiros. Lindo, mas também por demais triste. Vale muito a pena clicar!)

sexta-feira, abril 08, 2011

O massacre de Realengo-RJ: um outro enfoque.


Após o massacre de alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reforçou nesta quinta-feira a idéia de uma nova campanha pelo desarmamento no Brasil.



Bravo, senhor ministro. Pena que tenhamos que esperar tragédias desse nível acontecerem para darmos atenção a temas tão delicados quanto os relacionados à segurança pública e ao desarmamento, não é mesmo? Apesar de concordar piamente com o senhor, penso que a "culpa" deste massacre, em especial, não começa na venda livre de armas, na portaria ou na direção da escola, embora hajam falhas em ambos os sistemas. O desequilíbrio parte da ignorância da população brasileira (em geral - e isso inclui a comunidade médica) que trata as pessoas que possuem transtornos mentais (sejam psicóticos ou neuróticos) como "frescos" ou "malucos". Se a família ou os professores desse indivíduo [claramente doente] tivessem atentado para sua condição "fora do padrão", procurando ajuda psiquiátrica e/ou psicológica, talvez este massacre fosse evitado pois, se esse rapaz era mesmo um esquizofrênico, haveria de ser medicado a fim de evitar possíveis surtos que, na maioria das vezes, culminam com o surgimento de riscos potenciais à segurança da população. Por fim, concordo que mais nenhuma discussão trará as vítimas de volta. Se ele era psicótico ou não, nada mais importa, porque a dor que fica é latente e irreversível. Mas, além de propor discussões acerca do desarmamento e da segurança pública (importantíssimas), proponho que nós, enquanto familiares e professores não fechemos os olhos para a questão da saúde mental, e que sejamos mais atentos e sensíveis a determinados tipos de comportamento que possam indicar a presença de possíveis transtornos em nossos filhos e alunos, deixando de lado o preconceito, a fim de que possamos construir não só uma sociedade saudável, mas que os próprios portadores de transtornos mentais recebam tratamento adequado e digno. O desequilibrado Wellington foi mais uma vítima da sociedade e, sobretudo, da genética.

quarta-feira, abril 06, 2011

Cansada.


"Confesso, ando muito cansado, sabe? Mas um cansaço diferente. Um cansaço de não querer mais reclamar, de não querer pedir, de não fazer nada, de deixar as coisas acontecerem."

{Caio F.}

Eu consegui decidir não mais me estressar com algumas coisas. E não só consegui decidir: estou conseguindo não me estressar com essas coisas. Primeiro porque o fato de eu arrancar os meus lindos cachos da cabeça não vai adiantar nada; quem vai ficar careca sou eu. Segundo que eu descobri (espero que não tardiamente) que eu não posso mudar a velocidade de rotação do mundo e das pessoas; quem quiser correr muito pode até se cansar, mas eu não vou mais correr atrás pra poder avisar isso; lá no fundo todo mundo sabe disso e finge não saber, mas aí já não é mais problema meu. Quem, ao contrário, quiser se arrastar lentamente pela vida vai também ter que conviver com os atrasos e consequências deles. Paciência. Eu tenho ainda uma boa parte da minha vida pra viver.

quarta-feira, março 30, 2011

Exemplo.



De vida e de morte. De serenidade e de fé. De resignação e de luta. Descansa agora o corpo surrado e sofrido pela escória da doença que o afligia mas que, embora cruel, não soube agigantar-se o suficiente para arrancar-lhe o sorriso do rosto e a vontade de continuar. Imagino a dona morte rondando, perdida, ao longo desses 13 anos, sem obter êxito imediato. Imagino sua cara de decepção quando, em cada pós-operatório, seus olhos se abriam e seu semblante anunciava o milagre. Mais um milagre. Foi exatamente isso que Alencar foi. Não foi um super-heroi, porque super-herois não existem, mas foi um super-homem, cujo superpoder não estava na capa ou em qualquer arma letal, mas na sua mente. Enfim, cansou-se um dos corações mais otimistas que vi por aí. E partiu através do maior mistério que existe nesse mundo. Se foi o homem-esperança raficando até o fim que a esperança é mesmo a última a morrer: seu corpo desce à sepultura, mas ela, a tal esperança, fica em algum lugar de quem soube lançar um olhar todo especial sobre esse grande homem. Quisera que todos nós tivessemos fé e caráter suficientes para dizer, sinceramente, como disse ele um dia:


"Não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra."

sexta-feira, março 25, 2011

Vizinhos.


Cuidado com essa crença de que as coisas só acontecem com o vizinho; não esqueça que todo mundo também é vizinho de alguém... inclusive você.

segunda-feira, março 21, 2011

Sobre resistir.

Não acredito quando me dizem por aí: eu não resisti; eu não quis resistir seria mais sincero. Quando a gente quer, a gente resiste. Outras vezes, a gente diz que vai resistir, mas, simplesmente decide não resistir. Mesmo com uma arma mirada para a cabeça, uma faca apontada ao peito, a consciência latejando, é o poder de decisão que vigora: não resistir e viver, ou resistir... e morrer de vontade de não ter resistido.

segunda-feira, março 14, 2011

O mandamento.


Ouvi um dia aquele belo discurso sobre amar o próximo e me encantei com ele: uma bela profissão a seguir. Empenhada em tal labor, não tinha noção do quão difícil seria essa missão. De quanto suor teria que derramar para alcançar esse portento, bem como quantas lágrimas verteria, por achar em mim uma culpa real pela incapacidade parcial que me envovia. Até que um dia ouvi alguém dizer em alto e bom som algo que me libertou da culpa de não ser a amante ideal para o próximo (sobretudo os mais próximos): é tão difícil amar o outro porque, na maioria das vezes, o outro não facilita esse amar. Achei fantástica essa colocação! Penso que ela fala por si só. Nosso jeito difícil, nossas atitudes impensadas, nossa falta de sensibilidade, dificultam o cumprimento do mandamento maior. No dia em que aprendermos a amar o próximo no facilitar do seu amor para conosco talvez o mundo mude. Termino com um clichê barato, mas que fecha perfeitamente a idéia central: depende de cada um de nós.

quarta-feira, março 09, 2011

A cura.


Só se cure de você no extremo do necessário. Não se jogue pela janela assim, em vão. Tem que valer o preço de se perder. Tem que superar o agudo da dor fantasma, a angústia perene do escuro e o gosto salobro de cada lágrima, mas também superar a delícia de se sentir em si. Só se cure de você se o retorno for inevitável. Se o caminho foi o errado, se o acaso te sequestrou e anda se negando em te devolver. Não tenha medo, mesmo que enfrente o deserto das palavras e das rimas, das emoções e das pessoas. Porque um dia tudo volta, qual um ciclo sem fim que, vez ou outra se tangencia pra formar outro, e outro, e outros círculos de ciclos infinitos. E se por acaso não voltar, virão outras emoções, outras pessoas, outras palavras e outros ciclos também. Ando me curando e ciclando por aí. Outrora vivia por aqui, descrevendo minhas dores, meus pudores, amores e desamores. Tinha as pontas dos dedos e da alma em carne viva; escrevia para repassar a dor e vagar espaço para que outras tomassem lugar. Ainda tenho dores; é que elas também ciclam. Entretanto, tenho sido forçada a lidar com elas engolindo diariamente o antídoto que me fornece sufrágio temporário para tal. Talvez, um dia, conseguirei por mim mesma. Quando, enfim, me curar de mim.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

A minha vez.

Chegou a minha vez de não ser mais o que os outros esperam que eu seja. Não foi premeditado. Não é vingança. Não é rancor. É que eu virei isso. Talvez por causa de tanta frustração que me fizeram engolir pelo caminho. Pois bem: sequei.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Fica pro céu.

E lá se foi o grande Léo. Sim. Grande no tamanho e na alma. As ironias fatais da vida o aprisionaram em seu próprio corpo durante anos, e como um guerreiro, ele conseguiu passar seus últimos 12 anos e meio submisso a tantas limitações, despontando um bom humor único. Não sou a pessoa mais apropriada pra falar sobre ele; éramos apenas amigos de msn, mas de conversas frequentes, inteligentes e interessantes. Hoje você foi embora, Léo, e eu sinto muito, muito mesmo. Mas, olho pro céu e vejo mais uma estrela brilhando, iluminando a gente aqui na terra. Não deu tempo de eu te levar pra passear com minha carteira de motorista recém-tirada, de experimentar o novo layout do blog, nem de assistir o "pôr-do-sol às avessas" da janela do seu quarto. Então, fica pro céu.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Ano novo.

Um ano a menos de vida. Ou, como diriam os otimistas, um ano a mais que se passou. Enfim, não importa o ponto de vista. O fato é que daqui a alguns dias começa um novo ano cronológico. O ano que se vai, como todos os outros, abriga fatos e momentos que ficam. Não o classifico como ruim, apesar de todas as perdas, dificuldades e sofrimentos, aliás nunca tive o hábito de classificá-los. Eles são do jeito que são, do jeito que escolhemos que eles sejam ou, em última instância, como outras pessoas escolhem por nós (essa é a parte da vida que eu ainda não aceito). Mas, em geral, aprendi que a vida é mesmo assim - os coitados dos anos não têm nada haver com isso. Não farei festa nem estourarei champanhe, afinal, também não tenho vontade de comemorar, e se eu não vou conseguir ser hipócrita com o ano que se vai, imagine com alguém ao meu redor. Mas, acho que, pelo menos nos últimos dias do ano, uma boa notícia: pela primeira vez, depois de muito tempo, eu consigo enxergar piscas-piscas além da minha árvore de natal.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Um dia comum.

Eu me recordo com uma saudade gorda do tempo em que eu acreditava em Papai Noel, um velho gorducho que morava no Pólo Norte e passava o ano todo se preparando para atender os pedidos de presentes das milhões de crianças do globo. Meu Papai Noel conseguia rodar o mundo em uma noite graças às suas renas mágicas, que 'voavam' carregando o seu trenó numa velocidade supersônica, que nem os adultos poderiam compreender - quanto mais nós, meras criancinhas. Morro de saudade das noites que, ao redor da árvore de Natal (que meu avô montava) trocávamos presentes e sorríamos até a hora em que, apressada, eu me punha à dormir no intuito de esperar aquele que traria o presente que seria aberto na manhã seguinte. Muita saudade, sobretudo, da inocência e da grandiosidade que tudo aquilo - fantasia ou não - significava pra mim. Me recordo, e sinto falta também, da época em que eu acreditava no Natal. Da época em que sua essência perpassava o presépio e habitava no meio de nós de uma forma mais concreta. Da excepcionalidade que esse dia transparecia pra mim. Mas, faz bem alguns Natais, que ele tornou-se tão comum quanto os outros 364 dias do ano, e talvez ele até seja mesmo. Ou dependa mais do sentido que nós atribuimos a ele do que qualquer outra coisa, embora seu real sentido deveria subexistir por si só.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Chorona.

Um show de chorinho. Um deleite. Contemplo cada nota, cada músico, cada música, e ouço de chorar. Me lembro dele, mais uma vez. Meu avô adorava chorinho. E eu também adoro. Quase nunca vi meu avô chorar, exceto quando ele falava da mãezinha dele. Também choro quando penso na minha. De alma chorosa, escrevo esse post. Não tem jeito: sou uma eterna chorona.

domingo, dezembro 12, 2010

Por quê?

Passo a vida tentando entender. As coisas. As circunstâncias. As pessoas. Sobretudo, a mim. Talvez eu perca muito tempo com isso. Talvez eu não consiga entender boa parte de tudo. Talvez existam coisas mais importantes com as quais eu pudesse ocupar o tempo. Talvez minha lucidez esteja se perdendo junto com todo esse tempo que insisto em dispensar à essa estranha atividade de, simplesmente, entender. Juro que acredito em Clarice: viver ultrapassa todo entendimento. Mas esbarro contantemente na minha impotência em alcançar a plenitude necessária ao bem viver. E assim, continuo vagando por aí; mal-vivendo; buscando as respostas para tantos porquês.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Por educação.

Hoje, por educação, só um sorriso.

Um aperto de mão.

No máximo. Nada além.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Questionar.

"Uma vida não questionada não merece ser vivida."

(Platão)


Agora entendo [da minha forma] muita coisa. Aquela velha estória de que o governo não investe na educação para não criar seres pensantes, funciona em outras alas da vida também. A religião é uma delas. Antes de nos ensinarem a acreditar em Deus somos doutrinados a não questionar os acontecimentos da vida, os dogmas e as premissas que nos são anunciadas como "vontades" e "inspirações divinas", respectivamente. Eu realmente acredito que existam inspirações e desejos divinos, mas hoje eu penso diferente; penso que a grande maioria das tais inspirações não passam de conspirações humanas mesmo, e os desejos de Deus em relação a nós são sempre de bem estar e felicidade; nós que temos a mania de fingir não enxergar o melhor caminho e insistimos nos atalhos, ou, às vezes, nem é fingimento ou teimosia, é distração mesmo, e quando menos esperamos percebemos que pegamos a trilha errada . No final das contas, Deus não tem nada haver com nossas escolhas e muito menos com as consequências delas. Não tem nada haver com os nossos excessos, com nossa falta de prudência nem com nossa eterna imaturidade. Longe de estar possuida por esse racionalismo barato que existe por aí, sejamos, no mínimo, lógicos: muita coisa anunciada e enfiada na nossa cabeça contraria a lógica do próprio amor de Deus que nos é pregado. Naquele Deus carrasco e castigador que um dia eu ousei chamar de "primeiro amor", não acredito mais, e chego a duvidar que um dia eu o tenha amado; nunca vi alguém amar algo que o amedronta. Depois que comecei a questionar algumas coisas, independente de achar ou não as respostas, nasceu em mim a noção de outra figura divina: um Deus inatingível, que, se me amou até o extremo da cruz, não me condenaria por causa dos limites da minha condição humana. Um Deus que não pede nada em troca. Que leva em conta meus limites. Um Deus essencialmente amor, que me entende mais do que ninguém, simplesmente porque também me conhece mais do que ninguém. E que, como diz Fábio de Melo, não deve estar "muito preocupado com esse monte de coisa que a gente costuma achar que o agrada". Eu acho assim também.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Realista.


"(...) Tudo era tão frágil, esse era o problema. Nenhuma novidade, claro, mas de modo geral o que fazemos é bloquear a verdade: nos recusamos a admitir que nossas vidas podem ser destruídas tão facilmente, de outro modo, entraríamos em parafuso. Todas aquelas pessoas que vivem com medo e precisam de remédios... Elas são assim porque têm consciência das coisas, da linha tênue que nos separa do desastre. Não é que não aceitem a verdade: simplesmente não conseguem bloqueá-la."

Harlan Coben

(p. 114, Livro "Confie em mim")

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Sobre a inteligência.

 Inteligência não deve determinar muita coisa, não, visto que os seres "inteligentes" são os maiores escaladores conscientes dos perigos da vida, além de cometerem irracionalidades que não condizem com sua condição. E concluo, então, que inteligência sem sabedoria, sensibilidade e amor, não serve pra nada. Perde a patente de essencial e se torna acessória.

terça-feira, novembro 30, 2010

sábado, novembro 27, 2010

Quase Natal.

Meu avô adorava árvores de natal. Quando novembro ameaçava desperdir-se, ele se punha, em segredo, a entrar no quartinho de bagunças e desembalar a nossa velha árvore. E passava a manhã ou a tarde todinha se ocupando com bolas, enfeites e pisca-piscas. Quando terminava, ficava parado na frente dela por minutos, mãos postas para trás, esboçando um sorriso de canto de boca e um enorme olhar de satisfação ao vê-la toda pronta, bela e brilhante. Hoje eu resolvi montar a minha árvore de natal, e a lembrança dele não demorou em vir à tona com toda força. É. Agora, além das luzes e das bolas, tem uma saudade imensa embutida nos galhos da minha árvore e uma foto dele do lado dela, não pra manter a lembrança viva; esta jamais se apagará. É uma homenagem, vô. É só uma vontade de ver de novo seu sorrisão e seu olhar de satisfação. É outra forma de experimentar sua ressurreição.