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sábado, junho 02, 2012

Presente ao tempo.


 ♫ "E agora como posso te perder
Se o teu corpo ainda guarda o meu prazer
E o meu corpo foi marcado pelo seu?" ♫

(Nando Reis)


Eu resolvi nos dar pro tempo depois que você resolveu dar um tempo pra nós dois. Como eu não tinha papel de presente, embalei num papel de futuro. Depois de embrulhado, encontrei um laço de passado no chão do meu quarto, um tanto quanto amassado e empoeirado, e achei que poderia servir de enfeite. E serviu. Ficou bom. Mas, percebo que por detrás desse laço feinho tem um nó cego que nem nós dois conseguimos [ainda] desfazer... Desatá-lo, agora, fica a cargo do tempo. À mercê do resto de verdade que ainda teima em se esconder no sorriso que você me nega, no olhar que você me desvia, na palavra que você evita me dirigir, no miligrama de emoção que você deixa escapulir, naquela nossa vida que ainda vive em algum cantinho do âmago seu, nesse seu silêncio, fruto de um estar refém de não sei quem ou do quê. 

~ Mari Teixeira ~

quinta-feira, maio 31, 2012

The last.




  Ouvi dizer de mundos que haviam se tornado especiais e mais claros. De almas que se tocavam. De sentimentos que não paravam. De anjos que poderiam se tornar amores. De amores... De mares que, unidos a olhares, bastavam para lhe completar. De ser portadora da mágica de fazer emergir o melhor que pudesse existir em alguém, “com um simples toque, um olhar...” Ouvi e acreditei. Ouvi e me confundi. Ato falho: existem coisas que não se encontram à mercê da sensibilidade. 

  Ouvi ecos de futuro, e vi o futuro. Acostumada a sepultar passados, acreditei ser essa uma competência universal. Não era. Não é. Ser forte e tocar o outro sem, necessariamente, ter que machucá-lo é pra poucos. Saber entrar e sair, também – desde que você não entregue a chave do cadeado a ninguém.

  Ouvi gemidos, promessas, desabafos, dúvidas e clichês. Ouvi descrições de detalhes nunca antes percebidos, bem como frases insólitas. Ouvi declarações: chegar pra mudar a história de alguém, fazer caber em si a capacidade de fazer tudo se tornar mais fácil, mais especial, único -  responsabilidade que carregaria sem pestanejar se esta não tivesse sido arrancada de mim e devolvida a quem nunca conseguiu desempenhá-la com esmero, não apenas por incompetência, mas também por não compreender a diferença entre amor e egoísmo.

  Mas, de repente, o mundo escureceu. O sentimento parou. O anjo tropeçou e caiu daquele “céu de nuvens fofas e manjares divinos” e virou demônio. De repente, nem o infinito do mar era mais suficiente pra completar nada, e, bem do nada, um arquétipo de sentimento voltou à tona, e agora bóia oceano 
  adentro. E quem fica, que se afogue: nesse mar de navegar, não há botes salva-vidas pra todos.

  Pior que ser vítima de uma inverdade é ser vítima de uma empolgação...

~ Mari Teixeira ~

sábado, maio 26, 2012

Sobre corações, realeza e anfíbios.


Ele tinha um martelinho, uma machadinha, um pé-de-cabra e outras ferramentas que só os homens têm e sabem os nomes de cor. Ela tinha um coração de carne, tipo filé-mignon, mas jurava pra todo mundo - inclusive pra si própria - que era de diamante. Ele duvidou, a priori. Ela fez questão de ratificar: sou assim, sim! Ele não entendeu que aquele coração cintilava por ele tão intensamente quanto batia pelo mesmo motivo, nem que valia muito mais que alguma noites insanas de prazer.  Ela filou todas as aulas de Persuasão pra assistir às aulas de Amor, enquanto já tinha gente com diploma de doutorado na estória. "Um coração de diamante precisa ser lapidado", sugestionaram-lhe ao pé do ouvido. E ele assim o fez: retalhou um coração de carne e, assim, esculpiu três destinos distintos. Se ele sabia que a textura rígida daquele coração era puro blefe, sinceramente, não sei. Mas, sei sim, que ele abortou muitas certezas e relançou âncoras. Talvez ele tenha confundido o caso de amor deles com um filme do Shrek. Talvez tanto brilho presente no coração dela tenha lhe ofuscado o olhar. Talvez tanta preciosidade tenha assustado o seu doce e jovem coração de príncipe que acabara de deixar de ser sapo - nem todo mundo tem facilidade pra lidar com a realeza. Talvez tenha lhe faltado compreensão acerca da obviedade explicitada nesse curto espaço de eternidade vivido por eles: príncipes se casam com princesas. Sapos, com sapas...

~ Mari Teixeira ~

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

(In)conformação.


Eu me conformaria muito mais facilmente 
em nunca te ter tido do que,
 tendo sido sua, nunca mais te ter.

~ Mari Teixeira ~

domingo, janeiro 29, 2012

Decidi.

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Decidi fechar a porta. Levemente. Sem batê-la na cara de ninguém. Bater pra quê? Vou só pedir licença. Lacrá-la. Me trancar com você cá dentro. E solfejar ao pé do teu ouvido leves canções seguidas de sons indistintos, próprios da nossa dança sob lençóis. Decidi ficar. Recostar minha cabeça no teu ombro esquerdo e sincronizar a harmonia dos acordes interpostos pela maestria dos teus dedos ao pulsar do teu coração, numa só melodia. Inflar teu ego e por tabela o que mais quiseres, e o que for necessário pra iniciarmos nosso encaixe. Decidi deixar do lado de fora tudo o que não cabe [ainda] entre nós e tudo o que pensa caber. Porta fechada, chaves sumidas; janelas cerradas, roupas perdidas. Decidi deixar ser...