
Falando sério, deu fome. Fome mesmo, não aquela simples vontade de comer. Enquanto era só vontade, algumas migalhas de estrelas e pedacinhos de lua, servidos em lençóis novos na bagunça de um quarto qualquer, regados a um vinho barato e quente, apenas tragável pela presença dos cubos de gelo de água de torneira me bastavam. Enquanto era só vontade, cruzar meu olhar com o seu corpo e sentir na pele o cruzar do seu olhar com o corpo meu no meio de uma semana cheia, depois de saber que você sonhara com uma dose de Bacardi com limão, coca-cola e gelo, e de te fazer sonhar acordado na minha cama, era suficiente. Enquanto era só vontade, arrastar-me com o violão até a sala escura e cantar Roberto Carlos depois da sua partida, com o coração apertado, abraçado pela dúvida de quando mesmo você iria voltar, podia até soar piegas, mas ao mesmo tempo, era lindo de se ouvir - ♫... eu não queria ter você por um programa... ♫ - ainda que deprimente, sobretudo pra quem não tem outro colo certo pra deitar. E eu me ouvia, e tentava convencer minha voz a dar carona àquele bolo que insistia em estacionar bem em cima do esterno (pra não falar 'em cima do coração', e deixar a coisa mais piegas ainda). E eu me ouvia, e ao mesmo tempo, ouvia meu estômago contorcer-se, e seus ácidos corroerem suas paredes, e uma dorzinha distante beliscar-me por dentro. E eu te ouvia, e tentava entender tanta dualidade embutida em um coração só, tanta necessidade de encaixar as duas peças do teu quebra-cabeça no mesmo lugar do teu corpo, simultaneamente. Eu te ouvia atentamente, olhando quase que na tua retina, expirando compreensão e inspirando coragem pra me lançar naquele tornado que você acabara de me apresentar. E, embora eu não tenha medo de me jogar, ♫ ...eu tenho cicatrizes que a vida fez... ♫. Então, é isso; é sério. É fome. Não é qualquer vontadezinha que se resolva com ♫ uma noite apenas e nada mais ♫ . Não é amor, não é paixão, nem nada do gênero. É fome. É função vital. É questão de sobrevida de algo que pode (ou não) definir parte das nossas vidas. Aquelas migalhas, joga-as aos pombos; eles são pequenos o suficiente para saciarem-se com tais. E embora minha baixa estatura grite insanamente por uma interpretação ao pé da letra, sou gigante demais pra tão pouco. Se queres ficar, meu bem, sirva-me um banquete, mas antes, ouve meu canto: ♫ ... não quero seu amor por um momento, e ter a vida inteira pra me arrepender ♫ .