Nunca escondi de ninguém que entrar na casa dos 30 me assusta da mesma forma que eu me assustava com o escuro quando era criança. Não sei o por quê. É dificil aceitar essa idéia de me tornar uma balzaquiana, assim, 'tão cedo', embora eu ande convicta que a maturidade dessa fase é muito boa, me faz enxergar o mundo, as pessoas, a vida [e tudo que passou] com outros olhos. Faz com que eu me entregue à vida de uma forma mais completa e leve.
Talvez todas as mudanças que aconteceram até aqui foram, justamente, pra me preparar pra entrar no rol das mulheres de 30 com uma cabeça de mulher de 30, afinal, experiência não é apenas o que acontece com a gente, mas o que a gente faz e como a gente se comporta diante do que acontece com a gente. Até aqui passei por muita coisa. Optei por não passar por outras. Fiz coisas que jurava de pé junto que nunca iria fazer e deixei de fazer outras que jurava que faria até o fim da vida. Chorei muito, molhei muita fronha. Sorri também, de doer a barriga. Tomei porre de tequila, de whisky e de vinho; foi preciso que eu passasse por isso pra poder acertar nas próximas doses. Perdi minha voz, depois a encontrei. Conheci dores fantasmas, perdi um dos maiores amores da minha vida (vô, sempre vou te amar), joguei vôlei na chuva e aprendi a dirigir. Fiz amizades. Desfiz outras. Pensei muito. Escrevi muito. Enfim, me conheci: foi um imenso prazer!
Enfrentei bancas de concurso, conheci várias pessoas maravilhosas e outras mil arrogantes, me perdi na mata em plena Chapada Diamantina, andei em meio a serpentes e até as manipulei. Ouvi silêncios que gritavam. Vi minha família ruir. Entendi que sexo é um lance bioquímico e o amor é um laço cujo nó não é regido por moléculas. Aprendi que depressão é doença, não tem nada haver com o diabo. Que o diabo e Deus também existem, que eles podem até nos influenciar em alguma coisa, mas no final, a decisão é nossa. Que somos fracos, bem mais fracos do que pensamos, e que escondemos nossas fraquezas por pura vaidade. Que a vida é agora. Que não dá pra se esquivar de tudo na vida: existem coisas pelas quais a gente tem que passar.
Tô na segunda faculdade, escrevi um livro [falta só publicar], casei e separei. Corri atrás do que me faz feliz. Sou bem resolvida na maioria dos aspectos da vida, com um número razoável de amigos de verdade e, até aqui, consigo conviver com minhas cólicas, minha miopia e com meu TOC. Me aceitei humana demais. Depois, me tornei levemente ácida. Arquivei muita coisa; não dá pra levar em conta tudo nessa vida. Ela fica insuportável. Não cabe tanto na mala dessa nossa viagem. Furei o meu bolso: precisava perder algumas coisas que não tinha coragem de jogar fora. Briguei feio com meu superego; devo frisar que ele ganhou quase todas, mas ultimamente, eu tenho conseguido colocar ele no chinelo. Mas dentre tantas derrotas, resolvi parar de me esconder do meu id. Rompi quase que definitivamente com sentimentos de culpa sem sentido. Aceitei muitas pessoas do jeito que elas são. Outras, ainda não consegui aceitar. E outras eu não quis aceitar mesmo, achei que não valia a pena.
Sofri de paixão. Mudei a cor do cabelo mil vezes: já fui loira, ruiva e morena de novo. Assisti o pôr-do-sol no Elevador Lacerda. Fiz terapia (e ainda faço). Me decepcionei e devo ter decepcionado também. Mas ainda sonho. Muito. Um sonho diferente. Eu sonho acordada, com os pés no chão da cerâmica gelada do meu quarto. Sonho com um filho, um closet cheinho de roupas e sapatos, e uma salinha cheinha de livros. Sonho com uma faxineira de segunda a segunda e um emprego que me aceite das 9 às 17hs. Com uma banheira de hidromassagem em casa e um show do Los Hermanos. E desejo. Muito também. Desejo equilíbrio. Saúde. Paz de espírito.
Ainda assim, entrar nessa década da vida não me deixa menos aflita. Na verdade, eu tenho só impressões dessa nova era que me aguarda. Ano que vem, então, depois que eu cruzar a linha de chegada, passo aqui pra contar. Por enquanto vou curtindo meus 29 anos [e meio]. Que não voltarão nunca mais.
