"Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, por isso me grito, por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente (...): preciso de todos." (Carlos Drummond de Andrade)
sábado, julho 23, 2016
Pra sempre presente.
O tempo há de conjugar esse verbo da forma mais ideal, mais concreta, mais verdadeira, no presente contínuo apregoado por ele, você vai ver. Nunca em minha tenra e breve vida fui tão feliz, mesmo nos interstícios de pouquidão que você me ofereceu. Sim. Mesmo na insaciedade da imensidão dos meus espaços, mesmo na discrepância de nossas ideologias, mesmo no infinito dessa dor que me abarca... mesmo assim, eu ouso afirmar que você é o homem da minha vida. Não foi. Não vai ser. Você é. Eu sempre vou te conjugar no presente, porque a cada despertar consciente de minha mente é em você que minha memória se abre e se compraz. Sua ausência me engole e me constrange de tal forma que dormir torna-se a única alternativa plausível de sobreviver aos abismos que tua falta me causa. Então, meu amor, boa noite. Na verdade eu queria te dizer: dorme comigo. Mas dorme com Deus mesmo. Tá de bom tamanho.
domingo, junho 05, 2016
Ode à falsidade.
Quem não se mostra não é visto, e muito menos conhecido. Tem gente que finge uma vida toda e você aí achando que essa pessoa é forte, é firme, é foda... viver na pele e à flor-da-pele, realmente, é pra poucos... e esses poucos sempre se dão mal simplesmente porque não sabem ser o que não são. Mas, é isso aí, vida que segue. Um ode aos falsos! Um tapa na cara dos sinceros!
quarta-feira, maio 11, 2016
Choro.
Choro. Muito. Quando sinto a lágrima chegar, e na frente de quem quer que seja. Fraca? Vítima? Otária? Chamem-me do que quiser. Eu vou continuar chorando quando a vontade vier.
sábado, maio 07, 2016
Em parafuso.
Ela era um parafuso. Literalmente, um parafuso. Dava voltas e voltas em torno de si mesma. Caminhava feito um redemoinho. Talvez por isso sua vida fosse tão... agitada. E suas enxaquecas, infernais. Vivia cambaleando por aí, tonta, sem saber direito o que fazer consigo. Ultimamente, anda tentando traçar na cabeça uma perfeita linha vertical que, além de dividir imaginariamente os seus hemisférios cerebrais, também compartimentalize quase tudo - é, ela não sabe ainda dividir muito bem algumas coisas, e isso, ora facilita, ora se torna um problema. Faz pouco tempo, costumava ser confundida com um prego e sofria horrores com batidas de martelos. Até hoje não entende porque é tão difícil encontrar uma chave de fenda. Mas, hoje, ela sabe muito bem porque sempre sentiu a sua vida rodar, rodar e nunca sair do lugar. Afinal. Ela era um parafuso. E era justamente por isso que não era tão fácil arrancá-la de si.
Carta.
Penso que, talvez, tenham ficado algumas coisas a serem ditas, a serem feitas...alguns pontos corporais não explorados, muitos beijos não dados. Mas, ainda assim, diante dessas lacunas, repito que valeu a pena.
Valeu a pena a espera. Toda ela. Valeu o salto sem pára-quedas. A queda livre. O looping. Valeu a pena não ter abortado nada. Ter deixado essa coisa que já havia nascido não só crescer, mas, viver... Ter assumido os riscos - os de antes, os de durante e os de depois. Valeu cada pedacinho de madrugada, as tardes inteiras, aquele nascer do sol... Valeu ter sentido, ter tocado e ter sido sua. Ter provado dos seus néctares e dos seus olhares.
Valeu o bate papo gostoso. A intimidade, a afinidade, a ternura, o carinho, a química, a confiança [cega], o olhar sincero, a brincadeira espontânea, a voz firme, o apoio desinteressado, o abraço apertado e o beijo molhado. O suor colando minha pele na sua. O encaixe. A paciência. O respeito. Valeram as dúvidas. E as podas dos tais "excessos".
O que houve entre nós foi apenas a consumação do que já era. O que há entre nós é uma das misturas mais estranhas e deliciosas que a vida já me permitiu experimentar. O que haverá, entretanto, é uma incógnita. Impossível se prever. Só quero que saiba que almejo te encontrar nas esquinas do futuro mais próximo que existir...
Sobre a saudade e o amanhecer.
♫ " ... E na distância morro todo dia sem você saber..." ♫
(Roberto Carlos)
Os dias têm insistido em amanhecer com a saudade boiando nesse meu mar de viver. É saudade profunda, aparentemente infinita, teimosa em emergir à superfície, mas ao mesmo tempo, suscetível à rotina que meu dia traz junto com ela. O correr das horas pesa e ela, então, aos poucos, decanta, pra surdir novamente durante a madrugada, e como num ciclo sem fim, me despertar da forma mais dolorosa possível.
E eu faço o quê?
E eu faço o quê com essa coisa boa que me toma
quando lembro que sou sua pertença, ainda que
trancada a sete chaves num cofre de passado-futuro,
cuja senha jaz no coraçãozinho mais confuso que já
toquei em toda a minha vida?
╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮
Ser.
Porque tudo que eu faço e sinto é de uma intensidade gritante. Gigante. Alucinante. Não cabe, transborda, explode e é por isso que eu sempre morro. E alguns dizem: tão nova pra morrer! Por que não faz o inverso? Guarda tudo nas gavetinhas do coração, menina, nos interstícios da mente, mas poupe os ouvidos da gente! Ah, se também coubessem, juro-vos! Estaria tudinho guardado por nuances de cores e ordem alfabética. Mas sou mesmo uma patética pois, ao final morro mesmo de qualquer jeito, pois se assim não explodo de fora pra dentro, implodo e derreto todinha, começando pelo centro. Prefiro, então morrer de dentro pra fora, prefiro morrer leve, deixar-vos pedacinhos do meu sentir e do meu saber, e levar comigo apenas quem sou eu, este espírito encarnado que não sabe fazer nada, além de ser.
Uma dor.
Voltei a escrever, lindinha, voltei. Sei lá porquê. De repente deu vontade. Um start interior, daqueles que dava outrora. Uma madrugada, uma música, uma dor. Uma não, várias. É, elas vão e voltam, numa insistência impressionante. Eu pensei que depois que ele entrasse pela porta da frente da minha vida, a louca sairia pela dos fundos. Ledo engano. Ninguém é suficiente forte pra fazer isso por nós.
Que nem aquelas visitas inconvenientes que se plantam no sofá da sala da gente elas chegam e ficam, e não tem vassoura atrás da porta, bocejo, café frio, nem espada-de-são-jorge que dê jeito. Não tem dipirona, nem morfina, não tem nada. Aqueles dias idos serviram pra dar uma respirada boa, é verdade. Os outros foram, e estão sendo, dias asmáticos. A gente se adapta, mas a sensibilidade não some, a visão não se apaga. E a gente sente a incompletude, e vê que, por mais que a gente tente encher, a taça continua pela metade, e logo vem a certeza de que um dia ela vai entornar, para nunca mais se encher, nem sequer pela metade.
quarta-feira, maio 22, 2013
Pra sonhar.
Tinha que dormir pra poder sonhar até ver, numa noite como outra qualquer, um sonho nunca antes sonhado se materializar. Não se tratava de estar sonhando acordada. Não era uma mera manifestação do inconsciente suscitado, de repente, num momento de consciência, nem muito menos uma fantasia travestida de realidade. Era você, simplesmente você, a clara configuração da raridade, sobrevivente de uma seleção natural ocorrida dentro do seu próprio gênero, espécie que eu julgava já estar extinta, mantenedor das gotas de tantas virtudes verdadeiramente imprescindíveis à essa humanidade decadente. É de você, de doçura quase que constrangedora, que o meu paladar se nega a enjoar. Você, esse ser de sorriso encantante, de vocalização inebriante, de olhar cintilante e aroma de homem. Você, que me instiga rimas e versos, e um sentimento ainda incógnito que teima em saber se derramar homeopaticamente a cada minuto de contato, sorvendo em seguida a mistura do que sinto com aquilo que sentes e que também transborda de ti. Tinha que dormir pra poder tentar sonhar com você e ao acordar, então, perceber que você é mesmo um sonho, e só, e sei que, embora você tenha sido feito pra mim tanto quanto eu pra você, talvez nunca seremos já que fomos ludibriados pelo tempo, que nos adiantou a nós dois e sumiu na esquina mais próxima e, provavelmente, não mais volta...
quarta-feira, março 06, 2013
Perdão. Perdi.
Rompi o pacto. Perdi a razão. Perdoe a mim. Perdoe o que se move dentro em mim. Perdoe o que me move a ti. Perdoe minha fraqueza e ao mesmo tempo agradeça à ela, pois da mesma veio a força para suportar tudo até aqui. Perdoe, por favor, mas agora, a força acabou. Acabou a paciência. Extinguiu-se o medo, a dor. Mas alguma parte de você ficou. Já aprendi a lidar com as erupções de saudade. Já não relevo mais nada, nem meço forças para obter o que quero. Já não ligo para quem venha a estar ao seu lado, já não pestanejo. Já não há o que perder, ao passo que ainda não nos perdemos um do outro. Mas, já não espero. Já não te quero, ainda que, por algumas horas minha vontade me desobedeça pra se unir à sua. Parece poético, e pode até ser, mas às vezes o amor involui, antes de sublimar, meu bem. Aconteceu. Meu corpo ainda soletra baixinho cada parte do seu mas minha alma não se contenta mais com o alfabeto tão limitado que ele compreende.
sexta-feira, março 01, 2013
Aqui dentro ou lá fora.
Mas há que se admitir que há o amor e há a paixão. Que eles são miscíveis, e que vez em quando gostam de andar cada um de um lado da rua. Mas, se na esquina mais breve eles não decidirem tomar a direção da mesma encruzilhada, simplesmente morrerão, já que um exerce sinergia sobre o outro. Ao final das contas existe uma imprescindibilidade mútua, e é ela quem vigora. Aqui dentro ou lá fora.
~ Mari Teixeira ~
~ Mari Teixeira ~
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Eu tinha.
Eu tinha excluído as últimas fotos que restavam numa pasta oculta do meu computador. Eu as mantinha lá para impedir qualquer tipo de acesso rápido induzido por alguma saudade repentina; contemplar sua imagem consiste em evocar sua presença, e vez em quando eu precisava disso pra não surtar. Tinha apagado seu número do meu celular, não pra evitar impulsos próprios da carência ou da cachaça - o controle de mim você nunca conseguiu arrancar- mas, simplesmente por ter decidido deletá-lo da minha vida; era uma maneira simbólica de fazê-lo, ainda que, na mente, os números ainda eclodam de maneira quase constante. Eu dei as costas pra você e caminhei além, de cabeça erguida e repleta de certezas interiores, ainda que trouxesse no peito algumas poucas migalhas de esperança - voláteis migalhas de esperança. Eu tinha beijado outras bocas e provados de outros corpos, sonhado outros sonhos e traçado outros planos, mas tinha também a certeza de que, depois de você, jamais havia conseguido amar alguém da mesma maneira, quiçá além. Eu tinha você, e às vezes eu nem acredito nisso, simplesmente porque os dias voam e carreiam consigo, sem o mínimo de piedade, aquilo que optou por não criar a mínima raiz. O tempo é mesmo mais cruel do que a dupla de fracos que usou de um outro fraco pra mexer com a minha fraqueza: você tem se tornado uma verdade tão distante, arrefecida, meio translúcida, quase que opaca, que eu, por vezes, me pego pensando se você não passou de uma mentira.
Eu tinha entendido que você não era pra mim. Não que eu fosse melhor do que você, não é isso. Você só não merece o meu melhor, só isso. Merece a insanidade e o cativeiro, as correntes e os cadeados, bem como o chiado ensurdecedor da chantagem emocional perpétua e as máscaras que a acompanham de brinde, já que compactua com a crueldade a partir do momento que optou por omitir a única coisa que liberta e faz feliz: a verdade. Você não merece o que cabe no meu infinito e que, por tanto tempo eu insisti em transferir pra você. Aliás, o infinito não lhe cabe: a mesquinhez a qual você compartilha diariamente por meio de beijos, sexo e telefonemas só tende a te reduzir. Você é incapaz de gerir sua própria escolha, insistindo em outras paralelas. Você não sabe o que quer e muito menos quem é, ao contrário de mim que sei o suficiente o que quero e quem sou, pra me resumir aos seus resumos e rascunhos. Eu pensava que você era meu número, que você fazia o meu tipo, mas eu estava enganada. Eu sou do tipo que constrói arranha-céus de concreto e aquarela enquanto você prefere sujar as mãos com castelos de areia e água oxigenada barata.
~ Mari Teixeira ~
quinta-feira, janeiro 10, 2013
Eu só queria te ver.
Se esse hoje amanhecesse bem no dia do seu aniversário, eu só ia querer te ver, já que não é mais possível amanhecer ao lado seu. De longe ou perto, errado ou certo, falante ou mudo, eu queria te ver. Mas se eu não pudesse fitar-te, ligaria, ainda que isso fosse desnecessário, inconsequente, idiota ou incoerente. Ainda que fosse impossível ouvir sua voz; eu só queria que você ouvisse a minha. Ainda que você não merecesse sequer minha lembrança, ou minha torcida, minhas melhores intenções e muito menos o meu sentir, só queria isso: te ver. Ainda que você se achasse, eu não me importaria em me perder, sobretudo se o labirinto em questão fosse você. Ainda que tudo tenha sido um sonho, e que eu não tenha sido pra você um terço sequer do que você foi pra mim, ainda que eu não aprenda nunca a dosear minha doação como eu aprendo na faculdade a dosear medicamentos, eu só queria te dizer que eu só queria te ver.
~ Mari Teixeira ~
segunda-feira, janeiro 07, 2013
Nove meses.
"Nove meses sem você.
Tempo de dar à luz à tua ausência
gestada em mim, enfim..."
(Well Pires)
Nove meses sem você. E quando eu digo "sem", soletro cada letra com a alma e sinto minhas entranhas ressonarem com o peso literal que tal palavra traz. A impressão que tenho é de ausência total e perene mesmo, ainda que tenhamos nos trombado pelas esquinas da nossa existência nesse espaço de tempo. Nove meses de ausência. Uma ausência que carrega entranhada em si a intensidade de um nada proporcional ao amor que eu um dia senti por você. Tenho que te dizer: acho que você desaprendeu tanta coisa durante esse tempo! Desaprendeu a ser você, e arrisco dizer que anda mestre nesta arte da despersonificação - chego a acreditar que se tornou algo prazeroso e que esse coração que bate no seu peito não serve para nada além de bombear sangue. Você desaprendeu, inclusive, a ficar. Ou teria sido eu que aprendi a deixar você ir? Não sei. Só sei que já faz nove meses que eu concebi tua ausência, e a gestei em meio a dores, lembranças, saudade e amor. Vi minha alma dilatar aos poucos, enquanto tudo isso crescia dentro de mim, nutridos por um não-sei-o-quê de esperança que se incorporou também à tudo que já foi citado. Agora é a hora. Do parto. Do partir. De te deixar partir. De me partir também. De repartir teus retalhos que impregnaram em mim, lançar fora teus resquícios. Não há mais o que esperar, não há mais o que gerar. É fim de jogo, meu amor. Início de vida. Minha vida. Nova vida.
terça-feira, dezembro 18, 2012
Sobre medos, hipocrisias e humanidades.
Tenho medo de gente que é feliz o tempo todo. Que não conhece a cor da fraqueza, que nunca chora, que nunca se entristece, que nunca sente raiva nem vontade de dar um murro na cara de alguém. Medo de gente que nunca brigou com Deus nem com a mãe, que nunca quis morrer ao ser envolvida por uma dor lancinante, que é boazinha demais e que não sabe dizer "não". Tenho medo de quem nunca sofreu por amor, de quem nunca tomou um porre na vida e de quem não precisa pedir perdão. Morro de medo desse tipo de gente que nunca erra, que é imune a tudo e a todos, que não faz cocô, que nunca tocou a campainha e saiu correndo, e que não fala palavrão. Muito medo da perfeição tatuada na cara dessas pessoas, mas nenhuma vontade de ser como elas. E embora elas me façam ter a sensação de que eu não existo, eu me sinto muito mais viva do que elas, mesmo habitando esse invólucro limitado de humanidade. Eu já me encontrei nesse meu jeito inacabado de ser, nessa condição constantemente falha, nessa potencialidade errante e aprendi a administrá-la entre tropeços, quedas e soerguimentos. Só quem mergulha nisso consegue sentir a verdadeira beleza da natureza humana que a infalível rotina dos "fortes" jamais os permitirá experimentar.
~ Mari Teixeira ~
segunda-feira, dezembro 10, 2012
Again.
Das outras vezes eu assisti, de camarote, você arrombar a porta, pular o muro, destruir o cadeado e ir pra longe de mim. Eu assisti o seu vazar constante da minha vida sem que eu pudesse retransfundir uma gota sua sequer. Eu vi você escapulir por entre meus dedos como a mais fina areia que pode existir, do nada, sem que eu pudesse fazer absolutamente nada pra te conter. Completamente estarrecida, vi você confundir amor com obrigação, e fuga com solução, e parecia que toda a impotência do mundo havia resolvido cair sobre mim, dada a inércia a que fui imposta. Com você consegui mensurar o real sentido do verbo esperar, e eu realmente esperei - até cansar. E quando já não havia mais espera, não havia mais nada, certo? Errado. Havia você do outro lado da linha, um coração na mão e uma incondicionalidade embutida nesse meu gostar que burla qualquer lógica clichê, inclusive cansaços limítrofes. Eu me culpei durante muito tempo pela sua partida, sobretudo pela falta de causalidade diante do ocorrido: algum motivo haveria de ter, e pra nosso amor não cair na indigência, resolvi assumi-las, até a madrugada em que elas se dissolveram, todas, no corpo seu. Mas o dia amanheceu, e você me deixou um adeus colorido de saudade e vontade, e eu me vi obrigada, novamente, a assistir, muda, à mesma cena anteriormente citada. E não, você não imagina a bagunça que fica cada vez que você foge pela tangente da nossa estória e some do cenário desse drama, tão mudo quanto me deixa.
Desta vez, mais uma vez, eu abri a porta pra você entrar, mas ao invés de ficar nua na cama, envolta em lençóis brancos observando você se vestir e ir embora sem nem olhar pra trás e em seguida chorar até sentir os primeiros raios de sol adentrarem aquela vidraça fumê, eu vesti minha calcinha e o meu sorriso mais lindo, blindei-me de suas promessas e te acompanhei até o portão. Seus olhos brilhavam mais que os pontos luminosos que enfeitavam o céu naquela madrugada rara e o tom do adeus beirava o incolor. Voltei pra cama e abri meu dicionário racional que comprei numa liquidação num desses dias de fossa no qual você sai de casa de óculos escuros, coque no cabelo, carranca na cara e uma decisão no peito. Desci o dedo indicador pelo índice e achei: "Capítulo IV - Como lidar com a falta"... a sua falta... a presença mais perene que minha existência abriga. Migrei para a faculdade com seu cheiro impregnado na minha epiderme, seu gosto na minha boca e sua imagem na minha mente - a mais nítida de todas: nossa intensidade não admite meios-termos. Me pus a recomeçar, novamente, do zero: você e essa sua capacidade de ressuscitar o que, com tanto esforço eu tento assassinar diária e homeopaticamente dentro de mim...
╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮
╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Tim-tim.
Eram brindes múltiplos. Incansáveis brindes. Um tilintar de sussurros e gemidos. Éramos duas taças, e condensávamos em nossas epidermes o vapor da paixão que pairava no ar em suor e saliva. Marcas de unhas espalhadas pelas costas dele enquanto uma barba de três dias arranhava meu pescoço. "Olhos nos olhos", como, um dia, compôs Chico Buarque. Infinitos "detalhes", que nem a canção de Roberto Carlos. Eram brindes múltiplos. Incansáveis e ruidosos brindes. Éramos nós...
~ Mari Teixeira ~
~ Mari Teixeira ~
sábado, novembro 17, 2012
Um luto sem luta.
Disseram por aí que eu não lutei por você. Que se eu te quisesse mesmo, eu entraria pra guerra com armas e escudos, arcos e flechas, rezas e promessas. Que eu me acomodei na minha lamentação, que eu era lenta demais em resolver certas questões interiores - leia-se VOCÊ - e que você não me merecia. Fui bem mal interpretada; tanta inércia, não era acomodação, era respeito diante da sua escolha. A vagarosidade em colocar o sinal de menos antes do seu nome e logo após o meu vinha da dificuldade em resolver problemas matemáticos do gênero, além, claro, do meu alto limiar de tolerância diante de circunstâncias altamente estressantes. Quanto ao tal merecimento, eu tenho o péssimo hábito de deixá-lo em segundo plano pra fazer valer o significado. Mas sim, eu não lutei mesmo, talvez por conta da quantidade e da gravidade das feridas, pela inacessibilidade que você me impôs ou pela impossibilidade de compreender a situação pra poder traçar uma estratégia. Eu não lutei, por mais meu que eu achasse que você fosse, e dessa certeza não me isento: você foi tão meu, que tem gente precisando envolver seu pulso numa corrente e segurar bem firme, como quem segura o barbante de um balão de hélio, porque morre de medo que ele se solte e siga rumo ao infinito. Sim, eu não lutei por você. Eu tinha que considerar apenas o que estava ao meu alcance. Eu tinha que economizar energia pra me manter viva e conseguir continuar, e naquele momento isso era primordial: eu era a minha prioridade. E continuo sendo. Vivi meu luto sem luta. Mas lá no fundo, eu acho que não lutei por você simplesmente porque eu costumo lutar pelo que eu quero, não por quem não me quer.
~ Mari Teixeira ~
quinta-feira, novembro 15, 2012
Desabafo de uma Bela Acordada.
Aprendi que ao me expor ao seu ridículo, eu colho decepção, e o resquício de sentimento que jaz impregnado em mim acaba por vazar. Agora eu grito aos quatro cantos que descobri, enfim, a maneira de sair desse labirinto que aquela ilusão que você plantou em mim me meteu. Com você a vida era bastante colorida, mas mesmo sem te ter, os lápis de cores continuaram a existir, tanto quanto outro alguém que sabe manipulá-los tão bem (ou melhor) do que você; ainda bem que o leve daltonismo-pós-fim que me levou a enxergar a vida em duas cores por um bom tempo era reversível e hoje, além de enxergar muito bem, consigo ratificar um dos clichês mais batidos da história da humanidade: ninguém é insubstituível. Absolutamente, ninguém. Portanto, não seria diferente com você.
Eu não preciso do seu "oi" raquítico, nem do seu olhar covarde, e muito menos do seu sinal positivo que me transmite a negatividade mais densa - e tensa - que possa existir. Não preciso fermentar esperas inúteis pautadas em promessas inválidas, nem mendigar sua atenção, seu amor e seu sexo, ou viver justificando seu comportamento patético diante da sua indiferença - até onde eu sei você encontra-se em perfeito estado de consciência e se aceita tudo é simplesmente porque quer. Mas eu não quero mais. Eu não te quero mais. Eu renuncio todo o desejo de que o movimento de rotação do planeta mude de sentido e que seu coração passe a bater por outro sentido, e só não rasgo todas as cartas que escrevi e nunca mandei porque, ao contrário de você, não é do meu feitio deixar cair em meio ao vão aquilo que um dia tanto significou pra mim.
Quem ficou dormindo, esperando o príncipe encantado na torre de um castelo foi a Bela Adormecida, que ainda corria o risco de despertar e perceber que o príncipe não passava de um sapo. Pois bem, acordei. Sem beijo, sem príncipe, sem cavalos brancos ou poções mágicas. Sem gritos, sem baldes de água fria ou som de trombeta ao pé do ouvido. Acordei com o eco do seu cumprimento insosso que me soou como um desabafo: que droga, ela (ainda) existe...
~ Mari Teixeira ~
~ Mari Teixeira ~
terça-feira, novembro 13, 2012
Lide.
A ordem da vida é uma só: aprenda a lidar. Ouviu? Não é: "fuja" ou "relaxe". Não é: "finja" ou "esqueça". Não. A grande maioria das circunstâncias não nos dá a alternativa de outro imperativo: apenas aprenda a lidar. Ou nos adaptamos, ou o vento da seleção natural nos leva pra longe. Talvez doa, talvez sangre, talvez a gente entre em coma, mas logo, logo passa. Tudo passa...
~ Mari Teixeira ~
sábado, novembro 10, 2012
O melhor.
Quando você acha que um melhor não existe,
chega o melhor e te prova o contrário.
╰☆╮Mari Teixeira╰☆
sexta-feira, novembro 02, 2012
Pré-epitáfio.
"A vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Você senta para jantar, e aquela vida que você conhecia acaba de repente..."
(Inês pedrosa)
É, a gente acaba. Que nem arroz, feijão e farinha acabam do final do mês. Que nem vela que queima a partir do momento que é acesa, a gente começa a morrer no dia que nasce. A gente acaba, sim. Num passe de mágica, de uma hora pra outra. A gente acaba. Finda. Que nem novela, que nem história em quadrinhos. Que nem os anos, os meses, os dias. Dissipa. De repente. Igual fumaça, cheiro de perfume ou gás. A gente dissolve. Tal qual papel na água, açúcar no café.
É, um dia a gente se apaga, igual lâmpada, a vela. É o anoitecer da nossa existência, o fenecer da nossa história. A gente acaba mesmo. E não tem data certa. Pode até ser agora ou daqui há cinquenta anos. Esse dia a gente não sabe. Mas, mesmo assim, insistimos em passar pela vida como se ela fosse eterna ou como se pudéssemos predeterminar o nosso tempo aqui. Como se fôssemos senhores dele, de nós mesmos, da vida dos outros... do bem e do mal. A gente se acha, se sente. A gente tem um quintal bem grande dentro de si onde cultiva discórdia, orgulho, egoísmo, inveja e arrogância. E joga fora as sementes do amor, da concórdia, da paz. Valoriza mais as coisas que as pessoas. Perde tempo com coisas tolas, discussões banais, hábitos imbecis. Briga com o outro mais do que o ama. Grita com ele mais do que demonstra afeição.
A gente não pisa no chão, não olha nos olhos do outro, nega uma esmola, um sorriso, um olhar, a presença, a solidariedade, o abraço. A gente sonha tanto, e esquece de viver o hoje. A gente se acha melhor que o outro, mais bonito, mais bem sucedido, mais inteligente, mais isso, mais aquilo. A gente amontoa tesouros aqui na terra, coisas que a gente nunca usa, nem doa, nem nada. A gente se enche de roupa, de sapato, de dinheiro... se empanturra de comida, trabalha 24hs sem parar. Vê a vida passar, escapar por entre os dedos. E um belo dia, daqueles bem ensolarados, com borboletas voando e pássaros cantando, no auge de tudo, bem quando a gente tinha planos de mestrado e doutorado, de ter filhos ou de comprar uma casa na praia, planos de natal e ano novo, bem nesse dia surge, na partitura da vida, uma pausa eterna. Imprevisível. Irremediável. Pra quem fica, insuportável. E a gente morre. Acaba. Termina. Pra nunca mais.
A gente não pisa no chão, não olha nos olhos do outro, nega uma esmola, um sorriso, um olhar, a presença, a solidariedade, o abraço. A gente sonha tanto, e esquece de viver o hoje. A gente se acha melhor que o outro, mais bonito, mais bem sucedido, mais inteligente, mais isso, mais aquilo. A gente amontoa tesouros aqui na terra, coisas que a gente nunca usa, nem doa, nem nada. A gente se enche de roupa, de sapato, de dinheiro... se empanturra de comida, trabalha 24hs sem parar. Vê a vida passar, escapar por entre os dedos. E um belo dia, daqueles bem ensolarados, com borboletas voando e pássaros cantando, no auge de tudo, bem quando a gente tinha planos de mestrado e doutorado, de ter filhos ou de comprar uma casa na praia, planos de natal e ano novo, bem nesse dia surge, na partitura da vida, uma pausa eterna. Imprevisível. Irremediável. Pra quem fica, insuportável. E a gente morre. Acaba. Termina. Pra nunca mais.
quinta-feira, outubro 11, 2012
Ele me odeia.
Ele me odeia, só pode. Não me liga há séculos, nem me procura
há milênios. Me recorta das conversas em meio a uma seriedade perversa, enquanto eu morro aqui imersa nessa saudade que em me deixar sequer se apressa.
Ele me odeia, é quase certo, e eu não entendo essa sua necessidade de não me deixar chegar mais perto. Fez questão de construir um muro de
Berlim bem no meio da nossa história que ainda era de papel, e rasgou ambas as
partes como quem retalha um corpo em praça pública ou no leito de um bordel. Me anulou de vez da sua memória e, por mais que o tempo passe, é incapaz de dar a mão à palmatória.
Ele me odeia, já não há como negar. Instaurou uma distância tão infinita que só o que eu sinto por ele é capaz de mensurá-la. Recusa o meu olhar, ainda que eu sinta seu desejo gritar, e dessa forma, insiste em cerrar os olhos na esperança de apenas penetrar o meu corpo com o seu, ao mesmo tempo que alimenta a ilusão de que seu olhar já não tenha feito o mesmo com o meu.
Ele me odeia pelas certezas que lhe dei, pelo cuidado que lhe dispensei, pelas mil cartas que rabisquei, mas nunca as enviei. Me odeia pela minha coragem, e pelo tudo que um dia eu dei pra recomeçar tudo do nada; pelo único número que difere a placa do meu carro da placa da sua moto, e pelo sexo que difere o seu amor do seu ódio. Me odeia por ter sido tudo tão intenso, e por eu ser forte o suficiente em carregar essa intensidade durante e, ainda depois, mesmo enquanto ele me odeia.
Ele me odeia, não duvido mais. Brinca com o tempo como se guardasse para si um punhado de segundos em cada mão. Não parece ter noção da dinamicidade da vida, nem da relatividade do minuto seguinte - que pode ou não fazer parar os ponteiros da minha ou da sua existência. Cultiva confusões no quintal de sua alma e insiste em semeá-las por aí. Quis se perder de mim e faz questão de não me permitir achá-lo.
Ele me odeia, mas me liga à 1:20hs da manhã, e pesa seu corpo sobre o meu. Me odeia, mas me leva à boca como um fruto proibido. Me odeia, mas me oferece seu gosto salgado só pra se deliciar. Ele me evapora a saliva e precipita meu suor, mas ainda assim, me odeia. Me odeia pelas verdades ditas e pela minha resignação incompreendida. Me odeia por tê-lo amado ao extremo de renunciá-lo só pra vê-lo feliz. Ou, pelo menos, pra vê-lo feliz em achar que é feliz...
Ele me odeia tanto, em nuances de falsidade, desprezo e falta de caráter tão contagiantes, que eu passei a odiá-lo também: rompi aquela linha tênue cuja dor transcende o entendimento e onde o amor se ressignifica em ódio, culminando em indiferença. Ainda bem que ele me odeia; porque era muito mais fácil suportar a falta de quem me odiava; tão fácil quanto vir a odiar quem eu um dia amei.
Ele me odeia tanto, em nuances de falsidade, desprezo e falta de caráter tão contagiantes, que eu passei a odiá-lo também: rompi aquela linha tênue cuja dor transcende o entendimento e onde o amor se ressignifica em ódio, culminando em indiferença. Ainda bem que ele me odeia; porque era muito mais fácil suportar a falta de quem me odiava; tão fácil quanto vir a odiar quem eu um dia amei.
~ Mari Teixeira ~
terça-feira, outubro 09, 2012
Sorte.
E a minha sorte é ter vários "quens", ainda que poucos "quês" e raríssimos "pra quês"...
~ Mari Teixeira ~
quinta-feira, outubro 04, 2012
Tênue.
É absurdamente tênue aquela linha que os separa. De um lado a outro, nanômetros de distância. A cronicidade de ambos não permite que se estabeleça uma finitude. Ou seja o amor não acaba mas se ressignifica, geralmente, em ódio: muda a ótica, mas não a intensidade. Transforma-se a intenção, mas não volatiliza o sentir.
╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮
quarta-feira, outubro 03, 2012
Muito medo.
Morro de medo da evolução extinguir o gene da maturidade
e continuar selecionando o da hipocrisia...
~ Mari Teixeira ~
terça-feira, outubro 02, 2012
Último minuto.
A ideia é viver como se fosse o último minuto, não pelo desespero dessa possibilidade, mas pelos simples fatos da existência da tal possibilidade e da efemeridade dessa vida. Cada momento vivido é único, e não volta. E os não vividos, também não.
~ Mari Teixeira ~
segunda-feira, outubro 01, 2012
Ainda.
E ainda me dói amanhecer! Recobrar lentamente a consciência, e ser invadida imediatamente pela tonelada de ausência que paira por sobre a minha vida desde o dia que você decidiu ir embora de mim. Como me dói a relatividade embutida na sua última fala e o absolutismo incrustado no que eu sinto por você. Eu grito todos os dias pra dentro o quanto eu te preciso antes mesmo de ousar te querer, e enlouqueço a minha balança interior, simplesmente porque ela é incapaz de mensurar o tanto que você foi pra mim - e ainda é. Ainda não sei se dói mais o esmagar dos ossos, o inflar da alma, ou o engasgar das dúvidas... Ainda não sei ser plena sem você. Eu ainda ouço nossas músicas, e canto cada verso enquanto uma ou outra lágrima me escorre o canto externo dos olhos. Ainda conto os dias idos na esperança de acordar na manhã seguinte e poder zerar tudo de novo. Ainda quero olhar mais uma vez bem dentro dos seus olhos sem enxergar neles medo, além de desejo e prazer. Você não sabe como é lancinante a sensação de soletrar esse "ainda" ainda, e como me revolta perceber que essa falta tua não se envergonha por um minuto sequer ao demonstrar tanta incompetência em fazer minguar essa vontade; não é mesmo assim que dizem: "O que os olhos não veem, o coração não sente"? Mas se o coração sente, os olhos conseguem ver, ainda que distante. Seis meses sem saber o que se passa dentro de você, e ainda assim, você não passa...
~ Mari Teixeira ~
~ Mari Teixeira ~
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