"Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, por isso me grito, por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente (...): preciso de todos." (Carlos Drummond de Andrade)
terça-feira, maio 21, 2024
Eu queria que fosse você.
segunda-feira, maio 20, 2024
Me deixa passar.
Ligando pra gastar o crédito do meu celular. Sabe como é né? Essa operadora rouba, rouba da gente... não dá pra deixar nem um centavo pra ela. Mas, além disso, tem muito motivo embutido nesse ódio mortal que eu nutro pela minha operadora e que eu tento transferir pra você, sem êxito - ainda. Tô ligando pra tentar romper isso que nos liga. Pra pedir que você se perca de mim já que você insiste em me encontrar toda vez que tento me perder de você. Que vende os olhos, dê várias voltas em torno de si e tome cuidado para não afundar abraçado às suas circunstâncias, com toda a força, tonto, no chão; que crie ímãs e se ligue, definitivamente, a elas. Que fure os bolsos do coração, crie coragem pra chorar de saudade de mim, invente um Alzheimmer, sei lá, você é inteligente o suficiente pra encontrar uma forma de me deixar ir de você. E que apague da memória todas as músicas que eu cantei pra você, porque as lembranças são as coisas mais fomentadoras de sentimentos que eu já vi nessa vida.
Também estou ligando pra dizer que você tem treinado o meu poder de racionalização como ninguém, mas, confesso, está muito difícil, porque é em você que abrigo todo o meu amor. Que meus piercings ficaram lindos, e que é uma pena você não tê-los visto pessoalmente. Tô ligando pra te pedir pra compreender de vez que quando disseram por aí que um é pouco, dois é bom e três é demais, não estavam somente se referindo às proles; isso funciona perfeitamente com a gente também. E, aproveitando a deixa dos ditados populares, pra te dizer que tudo que é demais é sobra, resto, e é assim que você faz com que eu me sinta quando escolhe a clandestinidade pra me confessar suas confusões ou pra me ter.
Ligando pra dizer que eu tô bem, na medida do esforço que tenho feito pra tentar ficar. Que rola uns friozinhos na barriga quando chega alguma notificação de mensagem, mas logo passa. Tudo passa, meu bem. Me deixa passar por você...
sexta-feira, maio 17, 2024
Reencontro.
Você me vem e me preenche de sorrisos e olhares, de beijos e toques, de abraços e incertezas, de pronomes possessivos e verbos subjuntivos, e eu, tonta de paixão, derreto-me desfazendo o turgor de outrora. Você me envolve de mistérios, e me mantém refém da espera, atrasa meu sono e antecipa meu despertar. Consegue me dar um dia de presente, sem sequer deter o poder sobre ele. Me transporta para outra dimensão sem tirar meus pés do chão. É presente mesmo na completa ausência. Me pede calma ao mesmo tempo que me faz perdê-la. Fomenta minha intensidade e minhas necessidades mais íntimas e sacanas. Consegue me excitar só de me olhar. Ludibria meu tédio, mesmo quando a rotina me toma. E não sabe fazer outra coisa, senão ser em mim. Apenas ser em mim.
Mas, de repente, pisco os olhos e você não está mais aqui. Sempre chega essa hora, a hora em que o vazio volta a se instalar. Tua falta retorna e se coloca, com unhas e dentes, ousadamente, a enfrentar a intensidade que cintila entre nós. Então, eu me mordo de vontade de você, de desejo de sorver teu gosto novamente. Sangro. Mas, sangro pelo avesso. Contrario o verter do fluxo num esforço descomunal e me sinto afogando por dentro, numa agonia indescritível, não como alguém que não consegue inspirar, mas como alguém que, contrariando toda a lógica da fisiologia, se asfixia por não poder expirar...
Mas é que eu prefiro sangrar por minhas próprias mãos e também por elas me estancar, a ter que me entregar nas suas e correr o risco de você, mesmo sem intenção, terminar de romper de vez com minha hemostasia. Saudade tá rasgando tudo. Mas eu me mordo. Eu mordo cada laceração, cada retalho de mim que tua ausência corta. Mordo o travesseiro, o urso de pelúcia, e os dedos de tanta vontade de morder o lóbulo da tua orelha, a tua boca e a tua barriga. Mordo os meus próprios lábios pra tentar sentir o gosto que os teus deixaram ali. Mordo um sanduíche de queijo pra ver se essa vontade passa, mas a única coisa que resolve passar é o curta dos nossos momentos na minha mente, e um replay das nossas músicas no áudio do meu celular. Mordida e ensanguentada, levanto a cabeça e sigo em frente, levando entre os dentes essa vontade de te ver e de te ter de novo e pra sempre, sem, no entanto, nos fazer sangrar além do que nossa realidade já tem nos feito...
quarta-feira, maio 15, 2024
Mais eu.
Eu escolho velejar em águas mansas, brandas, porque eu mereço a calmaria, a exclusividade, a prioridade. Eu sou cara, eu sou rara. Só me tem quem pode e quem tem culhões para tal. Nunca vivi na coluna d'água da vida, o cálido me causa ânsias de vômito, o tédio me deprime, as indecisões me irritam, eu sou intensa, e não me permito receber menos do que mereço. Minha vida não cabe em taças pela metade: se assim for, eu entorno todas e as quebro, por mais delicioso que seja o conteúdo, por mais lágrimas que isso me custe. Prefiro o nada à metade de algo, ou principalmente, de alguém. Se quiser venha: o tanto de espaço que tem na minha vida, na minha alma, no meu coração consegue abarcar tudinho, sem sobras. Mas, venha pleno, sem arestas, sem afluentes, sem pendências ou confusões. E quanto às migalhas, mantenha-as com quem acha que sobrevive e se conforma com elas, porque eu sou uma alma imensa e sedenta demais para me contentar com coisas tão minúsculas, rasas e líquidas. E cresce um pouco; quem sabe um dia você, enfim, caiba em mim.
sexta-feira, maio 10, 2024
O tal click.
Quando a gente se deita e se enrosca, eu ouço o click do encaixe perfeito do meu corpo no seu. Cada milímetro da minha pele em cada milímetro da sua. Mas, pra mim, toda essa proximidade ainda é pouco. Se eu pudesse, me fundia a você, tornando-nos fisicamente o que já somos espiritualmente: um só.
Quando a gente se toca, os meus pelos se eriçam, a minha boca te pede, minha língua saliva, minha calcinha se molha e meu corpo te implora... e a gente se pega numa deliciosa dança de amor e desejo como se fôssemos duas taças a tilintar num brinde de duas almas que se amam mais que tudo...
Quando você invade meu corpo, eu sinto nossas almas se tocarem, e eu só consigo pedir a Deus que o tempo estacione indeterminadamente... te ter em mim como hóspede me plenifica, ser sua mulher me transborda.
Quando você repousa o cansaço do seu gozo no meu peito, eu me sinto a mulher mais feliz que o universo pode permitir existir... eu ratifico que sou sua, e sempre serei... o peso do teu corpo no meu me enternece e por vezes eu me pego desacreditada que somos uma realidade até sentir teu coração batendo forte por sobre o meu e entender que sim, nós existimos e somos um do outro. Delícia ter teu cheiro impregnado em mim, amor meu. Azar - puro azar - de quem nos perdeu. Feliz, por meu sorriso ter a companhia do seu...
quinta-feira, maio 09, 2024
Meu vício agora.
Você é a minha droga. Um vício de se ver e de sentir. Sua boca, meu oásis. Seu cheiro, meu ar. Sua voz, minha música preferida. Seu olhar, meu cais. Seu bíceps, meu travesseiro. Pernas enroscadas, respirações sincronizadas, batimentos cardíacos rítmicos. Tudo isso envolvido num amor que ninguém nesse mundo havia conseguido me amar até hoje. Por tantas vezes despertei no meio da noite como quem desperta de um sonho, e me punha a te olhar, sem acreditar que tinha conseguido caber tão perfeitamente nas dimensões do seu abraço. Era tanta magnitude e urgência naquela nossa forma desesperada de amar, que a impressão era a de que o mundo iria acabar no instante seguinte à pausa de cada expiração nossa, e por isso eu me apressava em sorver daqueles instantes o máximo do que podia. E assim o fiz. Você, por tantas vezes, foi meu antídoto também, não se engane. Mas, hoje, não passa de um veneno chamado saudade. Finalizo com doses mansas de vontade de te ver e te sentir novamente.
terça-feira, maio 07, 2024
Ao te ver passar.
Navegando por aí, me deparei com tua figura translúcida e vívida, sorrindo litros para uma câmera qualquer. Você, tão lindo, caminhava por entre o verde das folhas, e brilhava tanto que eu posso apostar que, junto ao astro rei, você também fotossintetizava sem pestanejar... Instantaneamente, meu coração, aos pulos, gritou pelo teu. Minha pupila dilatou ao te ver passar por ela. Meu peito fez menção de explodir. Meu corpo estremeceu e eu senti o eriçar de absolutamente todos os meus pelos. Por alguns segundos, senti minha respiração parar e me indaguei: então é assim que se morre de amor? Todas as reminiscências daquilo que vivemos saltaram diante dos meus olhos como um longa dos anos vinte: tudo em branco e preto, como a minha vida agora. E porque não dizer a nossa? Digo isto porque estou certa de que o tempo passa, mas nada do que vivemos consegue passar junto com ele: nosso amor fica - e há em mim a certeza que você sente isso também. Fica, por mais intempéries a que ele esteja subjugado. Fica, por mais que o medo e o orgulho berrem. Fica, por mais que a distância esbraveje o contrário. Por isso sempre nos conjugamos no presente... nós somos, e isso é e sempre será inquestionável. O nosso amor é e sempre será, porque, por mais que o tempo tente argumentar, ele consegue atravessá-lo intacto e infalível. Supremo. Impávido. E eterno.