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sexta-feira, julho 15, 2011

é... você sangra apenas pra saber que está viva.



Uma queda do centésimo andar de um prédio. Ela se jogou, eu vi, tenho certeza, embora todos ao redor daquele corpo estendido no chão sussurrassem: não acredito! Deitada no chão, o gosto de sangue na boca. O delicioso gosto de sangue na boca. Nem ela acreditava que aquele sabor metálico era tão bom assim. Levantou-se lentamente. Doíam-lhe todos os ossos; os órgãos; mas não a alma. Esta estava intacta. E não havia tristeza; a dor passaria, decerto. O cabelo, grudado ao asfalto quente. As unhas quebradas, os olhos, agora abertos. Mas estava viva. Nem ela mesmo acreditava. O coração pulsava num ritmo muito mais acelerado que antes. A respiração ofegante, o rubor na face. O sangue de novo. Escorrendo pelo rosto. Pelo corpo. Misturando-se ao suor. Cambaleante, caminhou até a praia mais próxima. Sentiu o vento bater na sua cara. Entrou no mar e sentiu o sal corroer seus arranhões. Mas sorria um sorriso manso. Infinito de prazer. Como nunca, nunca imaginava que pudesse ser. Ainda assim, algo lhe pesava sob as costas. Asas longas e brancas, sob as quais estava escondida sua humanidade. Eram bonitas, mas não combinavam com ela. Quem haveria de tê-las costurado ali? Num ímpeto, arrancou-as de si. Sangue de novo. Estranhamente, quando mais sangrava, mais se sentia fortalecida. Parou. Ouviu, ao longe, uma música: ela fechava aquele momento de forma perfeita. Cantarolando-a, seguiu descendo as escadas daquela avenida. E repetia sem cessar o refrão que dizia:

"...When everything feels like the movies
Yeah you bleed just to know you're alive..."
(Música: Iris - Goo goo dools)