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sábado, maio 07, 2016

E eu faço o quê?


E eu faço o quê com essa coisa boa que me toma 
quando lembro que sou sua pertença, ainda que 
trancada a sete chaves num cofre de passado-futuro, 
cuja senha jaz no coraçãozinho mais confuso que já
 toquei em toda a minha vida?




╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮

terça-feira, junho 26, 2012

Decoreba.


"E percebi que decorei o teu cheiro. Por Deus, 
que pessoa normal decora cheiros?


{Mariana Andrade}



Por mais que eu cace, inconscientemente, teu cheiro nas outras peles, não encontro nada minimamente próximo àquilo que meus receptores olfativos tão bem reconhecem. Mas, ah, se fosse só teu cheiro que eu tivesse decorado! Tem a cor da sua voz, que eu consigo ouvir só de te pensar. Tem sua respiração ofegante no pé do meu ouvido que me ferve. Tem cada tracejado da tua íris cor-de-caramelo, desenhado só pra me encantar, e  tem o prazer que teu corpo impregnou no meu. Tem um infinito que você depositou em mim a cada sorriso, cada olhar, cada toque, cada beijo. Têm cacos de lembranças espalhados por cada metro percorrido por nós dois nessa casa oca e nas ruas dessa cidade louca, e neles tenho cortado meus pés. É isso mesmo: ainda sangra, meu bem... muito. Só que agora, a ordem é parar com esse decoreba e aprender a viver sem você, ♪ já que você não me quer mais... ♪


╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮

quarta-feira, junho 20, 2012

Inúmeras vezes.



"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: 'Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". [...] a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?"

(Nietzsche)

Sim, eu viveria tudo de novo. Eu atravessaria o mesmo mar, e enfrentaria as mesmas ondas gigantes e os pontiagudos dentes dos tubarões, e mergulharia na mesma zona abissal, novamente. Eu amaria com a mesma força, ainda que esta fosse intensa o suficiente para destruir todas as minhas pilastras e me fazer desabar em você, e quebrar as pernas, o coração e a cara, novamente. Eu sofreria tudo de novo, e choraria os mesmos litros de lágrimas sem tentativa mínima de racioná-las. Eu te faria ser novamente a exceção daquela regra e te entenderia no último instante, mais uma vez, ainda que com olhos marejados e aerados, observando pouco a pouco a tua ausência penetrar a minha existência Tocaria as mesmas notas e cultivaria as mesmas possibilidades. Eu passaria mais mil e uma noites em claro, e correria pra te buscar no meio da madrugada quantas vezes você ligasse me pedindo pra te trazer pra mim. Eu comprimiria todos os meus órgãos infinitas vezes mais, e engoliria minha febre goela abaixo, e sentiria, outros zilhões de vezes a dor lancinante de descolar a alma do corpo todas as vezes que revivesse aquele adeus. Eu viraria essa ampulheta mil vezes, e reviraria, e viraria de novo, se mil vezes pudesse fazer... e continuaria a ser essa ínfima poeirinha, incapaz de precisar, exatamente, o quanto eu preciso de você...




╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮

segunda-feira, junho 18, 2012

Rotina.



Não há sensação melhor , não há
Sinto estar perdida e salva... ♪
(Sandy Leah)



Queria encostar meu pé gelado no seu durante a madrugada e entrelaçar nossas pernas até que o dia anunciasse a rotina que nos espera. Eu queria um beijo doce no pescoço e um abraço de urso pela manhã, bem cedo, sem essa coisa de ter medo. Queria a sua cara amassada fitando a minha e procurando meu brinco perdido por entre travesseiros e lençóis. Queria nós... Queria café na mesa, quentinho, e um botão da sua camisa pra prender em cinco minutinhos. Queria todos os segundos, todos os ponteiros, e um incinerador bem grande no meu quintal pra destruir todos os relógios e ódios, bem como todos os fragmentos de tempo que ousem marcar nosso 'passar'. Queria um bebê na barriga pra me chutar, e você cansado de tanto a beijar, sonhando com a sua cara estampada na carinha desse pedaço que você jurou me dar. Ao meio dia, queria me sentar com você à mesa, e te comer de sobremesa, regado à calda de framboesa  e uma tonelada e meia de certezas. E receber alguns telefonemas intermitentes no meio de uma tarde quente, te ouvindo dizer que pensa muito na gente. Eu só te diria que bem mais que isso, eu costumo te sentir antes de te fazer aflorar no meu pensamento, e que, se cada vez que eu te pensasse, isso me roubasse um segundo de de cada momento, meus dias já estariam mais do que contados há muito tempo... Queria uma coragem do tamanho do universo pra te sequestrar no final da tarde, e ouvir as mesmas verdades que aquele 1º de abril guardou em si pra toda eternidade. E, já em casa, num banho quente, nós dois embaixo do chuveiro: ter você lavando meu cabelo, e um coração flechado, feito à dedo no vapor d'agua impregnado no espelho. O Jornal Nacional ligado na nossa tv e eu, ligada, por completo, em você. Queria suco de acerola na jarra de vidro fosco, queijo no pão, e a mais bela visão: você com aquele sorrisão que desaba por causa do meu jeito tosco de deixar tudo cair no chão. Queria tua mão na minha mão... Teu sorriso lindo incitando o meu, e meu corpo em brasa pedindo pelo teu; queria você me arrastando para nosso quarto em breu, e me renovando essa sensação de te querer pra sempre, de te querer pra gente, de não te tirar da mente, de saber se tudo isso que eu sinto, você também sente...

╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮

sábado, junho 16, 2012

Deus cura.


Setenta dias duvidando da minha fé, ininterruptamente, e ao mesmo tempo, brigando com Deus: peço tanto, imploro tanto por meu coração machucado!... Eu grito: Deus, cura! Deus, cura! E nada de Deus curar, nada de Deus me ouvir, nada de Deus fazer parar, e só agora percebi: essa dor, por tão cedo há de cessar, já que, na verdade, é por você que, pra Ele, eu vivo a implorar...



╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮

sexta-feira, junho 15, 2012

Eu choro.


"Não foi nada. Deu saudade , só isso. 
De repente meu deu tanta saudade..."

(Caio Fernando Abreu)


Hoje, pela primeira vez, eu consegui chorar em silêncio. Tua falta percorreu meu corpo da mesmíssima forma que sempre faz d-i-a-r-i-a-m-e-n-t-e, e doeu da mesminha forma que sempre dói, mas já não tenho mais forças pra abrir a boca, enfiar a cara no travesseiro e gritar, pela enésima vez, todos os "nãos" que a incompreensão da tua ausência me impõe. Já não tenho mais forças para espernear, bater os pés no colchão e esmurrar a parede oca do meu quarto minúsculo e frio. Chorei calada, depois de um banho quente, às três da manhã, deitada na cama vazia, com o cabelo molhado, ouvindo Barry Manilow e borrando o resto de rímel que o demaquilante de quinta que comprei no mercadinho da esquina foi incapaz de remover. Chorei sim; vez em quando eu ainda choro. Eu podia dizer que não, que eu sou "forte", que nem o soletrar do teu nome me abala mais,  que já tá "desacontecendo", mas só que os tsunamis de saudade não respeitam nada disso. Além do quê, minhas pálpebras inchadas e meu nariz vermelho me delatariam na primeira chance que tivessem. E toda vez que eu acho que já fali a função das minhas glândulas lacrimais, a tua lembrança vem me recordar que só os mortos não choram, que eu ando bem viva, e que, quem se faz de morto pra mim, aqui, é você... 

Será que você chora?

╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮

quinta-feira, junho 14, 2012

Não passa.



Esperando o efeito do 'não ligar', 'não ver', 'não procurar', 'não ouvir a voz', 'não sentir o cheiro', 'apagar as fotos do computador e as lembranças do pensamento'. Como seria mesmo o mecanismo de ação disso tudo? Inibição competitiva das melhores sinapses que meus neurônios produziram em toda a minha vida? Empirismo barato! Já faz um bom tempo, mas a única coisa que passa é o próprio tempo.

╰☆╮Mari Teixeira╰☆╮

segunda-feira, junho 04, 2012

De saudade e de desejo.


Hoje eu acordei molhada. Derretendo de desejo e de saudade. Levantei da cama e bati de frente com a inviabilidade de, no momento - e talvez, pra sempre - matar os dois. Você bem que podia ter me feito menos feliz. Podia ter deixado como recordação uma alça de incompatibilidade, de um defeito inaceitável ou de uma mágoa qualquer pra eu poder me apoiar. Acordei, hoje, asfixiada. De saudade e de desejo. Mergulhei fundo demais, como sempre faço em tudo que me predisponho a viver. Sinceramente, não sei como arrancar de mim essa tendência a não me fracionar; nasci pra viver as inteirezas. Talvez precise, realmente, desaprender. Tenho subido à superfície lentamente, e isso é regra, meu bem, não é charme ou fraqueza. Qualquer ser vivo nesse planeta com o mínimo de noção de física médica sabe o quão negligente seria a pressa nessas horas: se for pra morrer, que seja de amor. Só de amor...

Hoje a sua falta tem me arranhado os órgãos... 


~ Mari Teixeira ~

sábado, maio 19, 2012

Bem-me-quer. Mal-me-quer.


Droga! Eu te quis, sabia? Muito. Te quis ao meu lado, lindo, cheiroso, meu, só meu, e li no seu olhar essa posse dia após dia. De minha parte, não duvide: me dei por inteiro, e ainda pedi empréstimo ao infinito pra poder te fazer o homem mais feliz do mundo. Eu quis seu sorriso açucarado, sua voz quente no meu ouvido, sua mão forte na minha nuca, sua língua no lugar certo. Quis velar teu sono outras vezes mais e cantar nossa música olhando dentro da tua pupila madrugada adentro. Quis amanhecer várias outras manhãs com você deitado ao meu lado e ouvir tua voz dengosa ao meio-dia pelo celular. Eu quis viver pra sempre com você, e quis esquecer que "o pra sempre sempre acaba". Quis tudo isso como quem não faz outra coisa além de querer. Como quem faz do 'querer' um verbo universal. Ainda quero. Minha alma ainda te pede. Meu corpo? Ah, esse te implora... Mas quando teu coração te liga no meio da noite e diz: 'preciso conversar sério com você', é prudente ouvir. Dá frio na barriga, tu  dá aquela engolida seca, tenta fugir, sumir: meu Deus, lá vem ele de novo! E aí, meu bem, se ele te conta que já não guarda mais tantas certezas acerca de algumas coisinhas, digamos, básicas, pra te manter nessa andança de saudade rumo ao 'seja o que Deus quiser', muda tudo. Agora, que seja como você mesmo quis. E como eu estou passando a querer. 

╰☆╮ Mari Teixeira ╰☆╮

sexta-feira, maio 18, 2012

Marcas.


Acordo e adormeço, todos os dias, a me perguntar se a pele dele guardou alguma marca além daquelas... Se sua alma, sempre inclinada aos tons graves consegue, hoje, entender a gravidade de um pesar - é dor que só agrava, dia após dia. Pensamento que só gravita em torno dele. Uma gravidade que me puxa e me prende a um pretérito-mais-que-perfeito. E eu, aqui, grávida de um amor anencéfalo, com prévias dores de parto desde sua partida,  mas, ainda longe de sentir o alívio de pari-lo para fora de mim. Marcada além do corpo, além, até, do meu poder de compreensão. Ainda dolorida de ter sido gravemente ferida, pesada de tanta saudade que já se nega a caber num espaço tão vasto de ausência; até saudade tem limite. Quero encontrar o meu também... 

╰☆╮ Mari Teixeira ╰☆╮

sexta-feira, maio 11, 2012

Inerte.

No limite... Não sei até quando vou suportar me 
submeter a essa inércia imposta pelas circunstâncias...

╰☆╮ Mari Teixeira ╰☆╮

quarta-feira, maio 09, 2012

Memórias.


Lembro de uma das nossas últimas conversas. Eu e você, ali, sentados na beira daquela cama que mal nos cabia - imagine o nosso amor. Achava muito lindinha aquela sua forma de argumentar e de me olhar - ainda acho. Você levantava a sobrancelha direita como quem quisesse ir além do que as palavras pudessem alcançar, e conseguia, sem esforço algum. Lembro daquele olhar nocauteador, repleto de um sentimento que a gente buscou, sem sucesso, descobrir o porquê de tanta demora em acontecer. Centenas de "ois" ao longo de uma vida toda, e, por que mesmo, meu Deus, um deles, num dia igualzinho a todos os outros, teria provocado esse furacão que teima em não passar? "Um cedo tarde", lembra? Eu me lembro. De cada detalhe - ah, como você se detinha à eles, enquanto eu me ocupava em te adorar, tal qual um deus no altar particular da minha vida. Da mistura de uma ternura incomum com um desejo pungente que transcendia nossa razão e o próprio tempo que tentávamos, em vão, subornar: ou ele parava, ou nós daríamos um jeito de parar nele, e eu era capaz de trocar a minha vida com ele por isso. Ainda sou. Parar o tempo diante da festa que nossos corpos resolviam dar cada vez que nos encontrávamos, com a participação ultra-especial das nossas almas;  fazíamos isso com uma destreza impressionante. Lembro de ter acusado o acaso, enquanto você fazia o destino sentar no banco dos réus da nossa estória. Culpados ou não, ao final das contas, eles foram absolvidos e nós, duplamente condenados: a nos perdermos um no outro e, depois, um do outro, e o pior, pelas mãos de um juízo alheio... Sentença injusta, mas que não muda nada. Estamos presos perpetuamente um ao outro, ainda que as grades da distância física queiram nos separar. A eternidade não tende a morar naquilo que costuma perecer... 

╰☆╮ Mari Teixeira ╰☆╮

terça-feira, maio 08, 2012

Entender.


Eu vivo pelo entendimento, imersa num lago denso de porquês e pra quês. Quando escrevo, não faço nada além de colocar meus sentimentos no papel no intuito de entendê-los, pois só saber e sentir não me permitem, por si só, alcançar o meu objetivo-mor: compreender. Escrevo para materializar o abstrato manifestado em cada batida que o meu coração proclama, e assim, poder enxergar melhor tanta coisa que se move em mim e me move, enfim. E se, pra mim, entender é essa coisa tremenda de grande, imagina viver!... Lembra do que disse Clarice? VIVER ULTRAPASSA TODO O ENTENDIMENTO... E hoje, é bem isso: ainda que eu entenda, me é necessário viver esse tempo e toda dor embutida na precocidade dessa colheita. Verde, mas só na casca; um tanto quanto azeda – ainda – mas, repleta de esperança.


╰☆╮ Mari Teixeira ╰☆╮

segunda-feira, abril 23, 2012

Mais eu.



Ando menos carente. Mais tolerante. Menos exigente. Mais madura. Menos impulsiva. Ando mais rapidamente. De salto ou de rasteirinha, de carro ou à pé, sob sol ou sob chuva. Corro. Tenho pressa. Viver me constrange a cada esquina, mas eu não consigo desistir de dobrá-las. Cada ângulo delas, por mais irregular que seja, não me freia. Choro. Não tenho vergonha de me inundar nem de não saber nadar. Arrisco umas braçadas; não tenho medo de me afogar nem de morrer. Desde cedo me permito sangrar; penso que faça parte disso tudo. Eu sei o caminho do banco de sangue mais próximo. No final, e, sobretudo, no meio de tudo, são as transfusões de amizade que sempre me reerguem. Há pouco, consegui fazer as pazes com determinadas ausências, e agora é hora de procurar o manual e repetir o script. É hora de colocar a falta que foge do olho no olho numa bolsinha de crochê e levá-la à tiracolo; é hora de alguém apressar a hora de despertar, pois se a falta minguar muito, escorre pelos furinhos. Trago na cara traços de uma felicidade que se sente incapaz de me decepcionar; que existe independente de quem ou do quê venha potencializá-la. Ando menos menina, um pouco mais mulher. Ando mais eu.

~ Mari Teixeira ~

terça-feira, janeiro 10, 2012

Sobre príncipes, sapos e (alguns) beijos.



Calma, menina! Vai devagar. Como diria minha avó, devagar com o andor, pois a santa é de barro. E de santa você não tem mais nada. Se é que um dia já teve. Então, calma! Olha pra cima, respira fundo... isso! Devagar. Calma de novo. Esse é só o início do início da sua vida. Eu sei que só agora você se deu conta de algumas coisinhas acerca de você mesma que todo mundo já sabia há tempos. Eu sei que assusta se conhecer de verdade e se dar a conhecer também. Eu sei que acordar de um sono de milênios, num tempo completamente diferente do seu é coisa de estorinha da Bela Adormecida, mas aconteceu com você, e agora não há como fugir. Você precisou de um beijo de um príncipe pra poder despertar daquele sono profundo, e que bom que deu certo. Ele foi o príncipe certo, no lugar certo, na hora certa da sua vida. Um príncipe lindo, cheiroso, delicioso, inteligente e bom de cama, diga-se de passagem. E como sua vida tem a mania de correr ao contrário, não poderia ser tão diferente: alguns beijos depois, eis que o príncipe vira sapo, bem na sua cara. Achei bacana essa sua tentativa insana de correr atrás dele para dar-lhe outro beijo e talvez desfazer o feitiço reverso, mas, concomitantemente, entendo o quão difícil seja realizar esse portento, posto que ele saltita enlouquecidamente a fugir de você. Então, lindona, esquece. Vai ver ele gosta de ser sapo. Vai ver ele sempre foi um sapo. Vai ver ele já tem uma sapa. Vai ver ele odeie a idéia de voltar a ser HUMANO e de se relacionar com uma HUMANA. Sei lá! Vai entender mente de gente... (ops! de sapo!)...

Mas, olha querida, por mais certo que ele tenha sido, acredite: os certos nem sempre serão os derradeiros... Assim como os sonhos independem da realidade para existir. Eu sei que você não se arrepende, e nem ouse sentir isso; se foi bom deve cair na malha da memória e ficar de relíquia p'raqueles dias inóspitos, nos quais as pequenas alegrias resolvem escapulir do instante presente. Eu sei também que você faria tudo de novo mesmo se tivesse uma bola de cristal, e sei mais ainda que se pintar oportunidade, você vai entrar no brejo sem pestanejar. Se você quiser, entra, mas entra pra curtir muito mais a água, a temperatura, o borbulhar do lance, do que o sapo em si... Não que ele ou você não mereçam, mas é que ele é um sapo... lembra? Então! E não se esqueça que virão outros príncipes, e outros sapos, e outros homens.  E são para esses últimos que você deve dispensar parte do seu sentir - eu disse parte. Porque príncipes não existem, sapos são de espécie diferente da sua, e homem nenhum merece todo o seu amor - guarda uma porção pra você, a gente sempre precisa uma hora ou outra de um pouco. E o mundo gira também, viu? Só os sapos parecem não saber disso...

~ Mari Teixeira ~

sexta-feira, julho 15, 2011

é... você sangra apenas pra saber que está viva.



Uma queda do centésimo andar de um prédio. Ela se jogou, eu vi, tenho certeza, embora todos ao redor daquele corpo estendido no chão sussurrassem: não acredito! Deitada no chão, o gosto de sangue na boca. O delicioso gosto de sangue na boca. Nem ela acreditava que aquele sabor metálico era tão bom assim. Levantou-se lentamente. Doíam-lhe todos os ossos; os órgãos; mas não a alma. Esta estava intacta. E não havia tristeza; a dor passaria, decerto. O cabelo, grudado ao asfalto quente. As unhas quebradas, os olhos, agora abertos. Mas estava viva. Nem ela mesmo acreditava. O coração pulsava num ritmo muito mais acelerado que antes. A respiração ofegante, o rubor na face. O sangue de novo. Escorrendo pelo rosto. Pelo corpo. Misturando-se ao suor. Cambaleante, caminhou até a praia mais próxima. Sentiu o vento bater na sua cara. Entrou no mar e sentiu o sal corroer seus arranhões. Mas sorria um sorriso manso. Infinito de prazer. Como nunca, nunca imaginava que pudesse ser. Ainda assim, algo lhe pesava sob as costas. Asas longas e brancas, sob as quais estava escondida sua humanidade. Eram bonitas, mas não combinavam com ela. Quem haveria de tê-las costurado ali? Num ímpeto, arrancou-as de si. Sangue de novo. Estranhamente, quando mais sangrava, mais se sentia fortalecida. Parou. Ouviu, ao longe, uma música: ela fechava aquele momento de forma perfeita. Cantarolando-a, seguiu descendo as escadas daquela avenida. E repetia sem cessar o refrão que dizia:

"...When everything feels like the movies
Yeah you bleed just to know you're alive..."
(Música: Iris - Goo goo dools)

segunda-feira, junho 27, 2011

Por mim.


Eu sempre fui uma menina comportada. No início, o era pra agradar os outros. Hoje, o sou por mim mesma. Continuo comportada na medida da minha vontade, embora tenha descomportado algumas idéias e modos de agir, porque meu crescimento e minhas mudanças não comportam mais a grande maioria dos itens que eu carreguei durante tanto tempo na minha bagagem. Alguns se tornaram pequenos pra a minha estatura; outros, grandes demais pra caberem na minha mala. Outros, supérfluos; outros, perderam seu valor; outros, ainda, se tornaram obsoletos. De alguns, enjoei. De outros, desisti. Tudo que renunciei e tudo que acrescentei, o fiz por mim. Não me lembro de ter tomado decisão melhor. Resolvi me dar um voto de confiança e uma chance de viver a vida - que (eu descobri há pouco), por acaso, é minha. Não tenho o hábito de sair dos trilhos, mas de vez em quando me pego fora deles, e o interessante é que não se tratam de atos de insanidade; pelo contrário, me percebo tão lúcida quanto quando estou sobre os mesmos. Apesar de me assumir o ser mais sistemático e perfeccionista do planeta, tenho dado folgas intermitentes a mim mesma, e tem sido muito bom. A gente se conhece melhor. Chegar perto das minhas periferias me permite identificar meus limites, os quais tantas vezes tive a impressão de serem curtos e tênues, mas que, na verdade são mais extensos do que eu imaginava, e essa é uma viagem que tenho feito frequentemente, mas da forma mais cautelosa que vocês possam imaginar. Hoje, se não excedo os meus limites, acreditem, é somente por mim. E se um dia eu chegar a ultrapassá-los, não duvidem: será por mim também.